As raízes da desigualdade de gênero na África do Sul

Com o advento do mês de agosto em que se celebra o mês da mulher na África do Sul, este artigo faz uma análise das causas da desigualdade de gênero neste país.

A população da África do Sul é formada por cerca de 57,7 milhões de pessoas de diversas origens, culturas, idiomas e religiões.1 O país possui 11 idiomas oficiais  (zulú 22.7%, xhosa 16%, afrikaans 13.5%, Inglês 9.6%, Sepedi 9.1%, Setswana 8%, Sesotho 7.6%, tsonga 4.5%, siswati 2.5%, venda 2.4% e ndebele 2.1%.2 A composição étnica do povo sul-africano é caracterizada pela pouca miscigenação mas grande diversidade entre os grupos. Os negros representam a maior parte da população e formam um grupo culturalmente e linguisticamente bem diverso. Os negros representam 80,9%, seguido por mestiços 8,8%, brancos 7,8% e indianos e asiáticos 2,5%.

Como se pode observar, a sociedade sul-africana é bastante complexa por se tratar de um país multicultural e heterogêneo. Ainda hoje essas organizações sociais tradicionais jogam um papel importante na estrutura de poder político, econômico e social. Elas são dominadas pelos homens ou seja são convencionalmente patriarcais. Nesse contexto a mulher negra sofre com a tripla discriminação: por raça, classe e gênero.

Além do sistema patriarcal, o apartheid também impôs restrições às mulheres africanas a partir dos anos 1950. Muitas mulheres viviam em condições precárias nas áreas rurais outras deixavam sua própria família para trabalhar de doméstica em outras regiões onde se situavam os bairros dos brancos. Em 9 de agosto de 1956, quase 20.000 mulheres sul-africanas de todas as raças marcharam na capital Pretória para confrontar as leis recentemente aprovadas que limitavam sua participação na sociedade. É difícil definir as questões específicas que as mulheres sul-africanas enfrentavam em 1956 ou enfrentam hoje. Questões que preocupavam as mulheres na década de 1950 podem ser descritas como questões “pão e manteiga” (‘bread and butter’ matters), como habitação, preços de alimentos e igualdade. Na África do Sul atual, as mulheres enfrentam uma ampla gama de questões, como violência doméstica, abuso infantil, HIV / AIDS, discriminação de gênero, bem como a pobreza. Atualmente, as mulheres ainda permanecem economicamente dependentes dos homens. Na África do Sul, 40% dos lares são considerados pobres e esta taxa de pobreza existe principalmente porque as mulheres não fazem parte da força de trabalho.

De acordo com o Fórum Econômico Mundial, a África do Sul ocupa o 19º lugar entre 144 países em termos de igualdade de gênero.3 Quando o mundo celebra o dia da mulher, este país celebra o mês da mulher. Em teoria, a África do Sul tem excelentes leis e normas para promover a igualdade de gênero e se opor à opressão e a todas as formas de violência contra as mulheres. A Constituição sul-africana proíbe qualquer forma de discriminação. A Comissão para a Igualdade de Gênero afirma que “se deve promover o respeito à igualdade de gênero e a proteção, desenvolvimento e alcance da igualdade de gênero”. Além disso, há também um Ministério da Mulher, porém na realidade ainda é preciso fazer muito.

O número de mulheres ocupando cargos políticos vem aumentando desde sua democratização. Após as eleições gerais de 2014, as mulheres ocuparam 46% dos cargos de vice-ministro e 41% dos cargos parlamentares. Assim como a presença de mulheres no mercado de trabalho tem crescido, a violência contra a mulher também mostra dados bastante elevados. Entre 25% e 40% das mulheres sul-africanas sofreram violência sexual e / ou física. Pouco menos de 50% das mulheres relatam ter sofrido abuso emocional ou econômico nas mãos de seus parceiros durante sua vida e entre 28% e 37% dos homens adultos relatam ter violentado uma mulher.4

Van Niekerk, Tonsing, Seedat, Jacobs, Ratele & McClure (2015:1) argumentam que “na África do Sul, a violência é marcada por múltiplos fatores sociais, incluindo pobreza generalizada e racializada, desemprego persistente e renda desigual; noções patriarcais de masculinidade que celebram a tenacidade e a assunção de riscos; extensa exposição a abuso na infância; acesso a armas de fogo; uso excessivo de álcool; e fraquezas na aplicação da lei”.5 Portanto, a violência contra a mulher além de tipificar uma violação dos direitos humanos é também a causa e consequência da desigualdade de gênero.

Montserrat Lleyda

 

Montserrat Lleyda Linley é graduada em Relações Internacionais pela Univesidade Autónoma de Barcelona,  mestre em Comércio Exterior pela Universidade Pompeu Fabra de Barcelona e Mestre em Relações Internacionais pela University of Cape Town.

 

Bibliografia

1 Statistics South Africa. Mid-year population estimates, 2018. South African Government. Disponível em:

<http://www.statssa.gov.za/publications/P0302/P03022018.pdf&gt;. Acesso em: 24 de julho de 2018.

2 Media Club South Africa. The languages of South Africa. Brand South Africa. Disponível em: <http://mediaclub.co.za/landstatic/80-languages>. Acesso em: 24 de julho de 2018.

3 The Global Gender Gap Report 2017. World Economic Forum. Disponível em:

<http://www3.weforum.org/docs/WEF_GGGR_2017.pdf>. Acesso em: 24 de julho de 2018.

4 Gender-based violence in South Africa. Saferspaces. Disponível em: <https://www.saferspaces.org.za/understand/entry/gender-based-violence-in-south-africa&gt;. Acesso em: 25 de julho de 2018.

5 Van Niekerk, et al. The invisibility of men in South African violence prevention policy: national prioritization, male vulnerability, and framing prevention. 8, 10.3402/gha.v8.27649. Global Health Action, 2015.

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Ano Europeu do Patrimônio Cultural

  1. O objetivo do Ano Europeu do Patrimônio Cultural (2018) é sensibilizar para a história e os valores europeus e reforçar o sentimento da identidade europeia. Mas, mais do que isso, é considerar esses valores e essa identidade como realidades abertas a outras realidades – sabendo-se os desafios que o património cultural enfrenta e que têm impacto, desde a transição para a era digital até à pressão ambiental e física, sem esquecer a prevenção e o combate do tráfico ilícito de bens culturais. Daí a necessidade de promover a diversidade cultural, o diálogo entre culturas e a coesão social, de realçar o contributo económico do património cultural para os setores criativos e para o desenvolvimento e de salientar o papel do património cultural nas relações internacionais, desde a prevenção de conflitos à recuperação de património destruído.
  2. Não falamos de coisas do passado, irremediavelmente perdidas num canto recôndito da nossa memória. Referimo-nos à memória viva, seja ela referida a monumentos, sítios e tradições, seja constituída por acervos de museus, bibliotecas e arquivos. Mas fundamentalmente tratamos de conhecimentos ou de expressões da criatividade humana… Ter memória é, assim, respeitarmo-nos. Cuidar do que recebemos é dar atenção, é não deixar ao abandono. Por isso, o património cultural que devemos proteger é sinal para que o que tem valor hoje e sempre não seja deixado ao desbarato. Como poderemos preservar o que é novo se não cuidarmos do que é de sempre?

Por ocasião desta celebração apresentamos a proposta mencionada na conferência da IADIS- Associação Internacional para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (2002):

O Forum Identidade e Herança Cultural

Objectivos:

Compreender a diversidade cultural e as diferentes identidades para alcançar a união através do conhecimento mútuo.

Informação em várias línguas.

Estudos comparativo de religiões, sistemas políticos, instituições e herança cultural.

Identificar os elementos que caracterizam e distinguem as diferentes comunidades, preservação de específicidades e criação de auto-estima combatendo a homogeneização da sociedade.

Promoção de intercâmbio de pessoas, conhecimento e actividades comerciais.

Forum:

https://groups.google.com/forum/#!forum/cidentity

 

ceres

Lisa Henriques
Nasceu em Lisboa, 22 de Dezembro 1981
Pós graduação em Estudos Europeus, Universidade Católica, Lisboa
Publicou Aufgang Luz Nebulosa
Comunicação Portugal Hypercluster do Mar e Política Marítima Europeia, Instituto de Defesa Nacional

Redes sociais, a ascensão de um 5º poder

Após a queda do antigo regime o poder, até então centralizado no monarca, passou a ser divido em três áreas: o poder executivo, o legislativo e o poder judicial. Se adaptando a diferentes composições e organismos conforme a estrutura de cada estado e as próprias condições decorrentes do pacto social e de outras dimensões tais como a esfera cultural, a religiosa, etc.

Apesar de não haver um modelo de Estado padrão dentro do panorama internacional, existe um amplo consenso sobre a necessidade de separação desses poderes, cujo objetivo básico é viabilizar a democracia, consolidar o governo e o estado de direto. Sem embargo, na prática essa separação pode ser questionada conforme a perspectiva do observador, não sendo a democracia do Reino de Marrocos, a mesma que a de um país latino como o México, o de uma nação tradicional como a Índia ou uma economia desenvolvida como o Canadá.

Ainda assim, apesar das características que cada país possa apresentar, existe uma certa harmonia e um fluxo que direciona e divide o poder, desde sua formulação dada pelos diferentes grupos de interesses à sua aplicação pelos órgãos executivos.

A mídia surgiu como uma ferramenta capaz de fomentar mudanças no ciclo do poder e até mesmo de alterar determinados movimentos dos grupos de interesse elevando novas figuras formuladoras de opinião.

Porém com a evolução da mídia, a mesma se transformou em um ente com suas próprias pretensões, deixando de ser uma ferramenta para se transformar em um novo poder não constituído de forma oficial, mas presente em todos os sistemas de governo, o 4º poder.

Nas últimas décadas vimos o surgimento de uma nova ferramenta.

As redes sociais foram criadas com o intuito de unir as pessoas, gerar redes de contato ao redor do mundo e ampliar a interação social. Parte dos vínculos afetivos passaram a integrar uma nova realidade virtual eliminando as distâncias, gerando novas pontes e uma nova consciência para a sociedade cada vez mais globalizada.

Mas assim como a mídia tradicional, as redes sociais foram evoluindo. As empresas passaram a integrar esse espaço virtual e a ofertar seus produtos, as organizações se fizeram presentes e com elas suas ideias, a privacidade se transformou em moeda de cambio havendo uma linha muito tênue entre exposição voluntária e exposição explícita.

Tecnologias como o Big Data e a Internet of things (Internet das coisas) ampliaram o mundo virtual a uma escala jamais vista, eliminado praticamente a barreira entre vida particular e a pública.

A rede sabe quem você é através das redes sociais, sabe seus padrões de compras, suas pesquisas para as próximas férias, suas fotos compartilhadas somente com amigos, sua conta bancária, seus status laboral, sua formação, sua religião, seus fetiches, sua forma de ver e pensar…  E da mesma forma que ela expõe isso ao mundo aos poucos começa a ser utilizada como a forma mais avançada de manipulação que jamais existiu… Uma sociedade tal qual mencionava Guy Debord com a ampliação do conceito de fetichismo de Marx.

A diferença da propaganda tão utilizada por nazistas, comunistas e capitalistas. As mídias sociais promovem a possibilidade de produzir material específico para cada público, faixa etária, renda e localização geográfica. O algoritmo usado pelas principais redes sociais, promove uma continua exposição de um conteúdo específico que pode ser facilmente manipulado.

Essa manipulação crescente nas redes sociais, são frutos não somente da exposição de informações, mas também da falta de uma legislação clara ou regras específicas. E a mesma rede social que permite que grupos extremistas façam a captação de jovens na Europa é aquela que censura a foto de uma estátua de uma vênus paleolítica ou de um pai dando banho em seu bebe.

O uso das redes sociais como ferramenta de manipulação, ganhou maior relevância com o escândalo envolvendo a maior empresa do setor, que forneceu mais de 80 milhões de dados dos seus usuários e que permitiu o uso da mesma para influenciar tanto as eleições americanas como o referendum britânico.  O incremento das notícias falsas também é uma crescente preocupação na Europa e na América Latina.

Mas as redes sociais, embora cada vez mais evoluídas, não apresentam o âmago de ser independente e representar seus próprios interesses como ocorreu com a mídia tradicional, mas bem tudo pelo contrário, o estado de anomia existente nas redes sociais é o que lhe fornece força e a constituí como um 5º poder.

A incapacidade de controlar a informação ou moldar o fluxo da mesma, além da sensação de liberdade que oferece as mídias sociais, possibilitou não somente seu uso para manipular, mas também a capacidade de gerar novos formuladores de opinião, alguns deles descartáveis outros simplesmente automatizados para ir guiando o povo conforme suas pretensões, sendo muito poucos aqueles capazes de perceber essa influência, já que a mesma se dá por aproximação, por aquilo que o usuário gosta, por sua forma de pensar e não por oposição, motivo que também explica a crescente polarização da sociedade em relação a todo tipo de temas, esquerda versus direita, ateus versus religiosos, veganos versus carnívoros, etc.

Filósofos como Umberto Eco e Noam Chomsky já haviam se posicionados contrários e cautelosos perante as mídias sociais, recentemente diretivos relacionados as principais redes também alertaram a população. Mas eis a evolução da mídia social… ela já não é um espaço de interação social usado para se conectar com um amigo…ela é um campo de guerra psicossocial digitalizado, um mundo virtual, capaz de ecoar nos demais poderes, ao tempo que estes, também a utilizam para se perpetuar em seus pedestais.

Talvez o maior paradoxo que envolve as redes sociais é que elas já não fomentam o diálogo, mas sim… o confronto.

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Wesley S.T Guerra, Atua como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comércio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latino-americano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura, MBA em Marketing pelo Massachussets Institute Of Business e mestrando em Políticas Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Fundador do CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais.

Bibliografia

ECO, Umberto. Pape Satàn Alepp, crônicas de uma sociedade líquida.

DEBORD, Guy. A sociedade do Espetáculo.

CHOMSKY, Noan. Contra o Império da vigilância.

Venezuela: Um recorte da conjuntura atual e o papel dos EUA na crise

A profunda crise político-institucional vivida há 5 anos na Venezuela tem origens históricas datadas do final do século XX e início dos anos 2000.

Neste panorama político instável ascendeu em 1998 Hugo Chavéz, como resultante de um processo de decomposição das estruturas políticas tradicionais dominada pelo bipartidarismo de base social-cristã e social-democrata, partidos responsáveis por conduzir o país a um período de estabilidade institucional distinto das maiorias dos regimes ditatoriais que compunham a cena latino-americana nas décadas de 60 e 70.

Todavia, com o cenário econômico dos anos 80 mudando para um quadro de crise da dívida e baixa nos preços internacionais do petróleo em 1983, os efeitos ao país prejudicaram a estabilidade institucional.

Nesse novo panorama, no 2º mandato do presidente Carlos Andrés Perez (1989-1993) a tomada de empréstimos junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI) exigiu como contrapartida reformas estruturais que geraram corte nos gastos sociais, aumento no preço da gasolina e dos serviços públicos, forçando a população a promover forte oposição, movimento que ficou conhecido como “Caracazo”.

Esse movimento popular teve como resultante o surgimento de uma nova etapa na política venezuelana, ao receber um forte enfoque social invertendo as prioridades do Estado, com redistribuição das receitas do petróleo para projetos de benefício massivo, dentre os quais: “Misión Barrio Adentro”, projeto de saúde pública estruturado em redes de postos de atendimentos instalados nas áreas mais pobres, projetos para erradicação do analfabetismo em todos os níveis via rede pública de ensino e políticas para diminuição do déficit populacional através de moradias acessíveis para a parcela mais pobre da população.

Há, contudo um grande interesse internacional pela Venezuela, inicialmente pela ampla reserva petrolífera em seu território o que leva a uma reflexão feita por uma parcela de analistas internacionais que apontam para um cenário de intervenção externa, seja por meio de guerras econômicas e comerciais, seja por ingerências políticas.

Nesse recorte geopolítico, o histórico de intervenções externas diretas, ou indiretas produziu desdobramentos com inúmeras variáveis, principalmente na esfera humanitária, que pela corrosão do Estado e, por conseguinte do tecido social, promoveu a ruptura com o desenvolvimento, casos de Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria, para citar os mais recentes.

Dentro dessa ótica, o país sul-americano já testemunhou a saída de aproximadamente 700 mil pessoas, de acordo com relatório da Agência das Nações Unidas para Refugiados (UNHCR) que aponta Curação, Aruba, Brasil, Trinidad e Tobago e Colômbia como os principais destinos dos refugiados.

Os Estados Unidos, nessa equação, utilizando do recorte da atual administração de Donald J. Trump, não coloca como centro de relevância para sua política externa o continente americano, sinais claros que foram confirmados pelo pacote de medidas anunciadas logo no primeiro ano de mandato do presidente estadunidense, que consistiu na saída da Parceria Transpacífica onde figuram Canadá, Chile, México e Peru, como representantes das américas, o desejo de renegociar o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), o afastamento do Acordo Climático de Paris apoiado amplamente por nações latino-americanas e o fim do programa diplomático de reaproximação com Cuba.

Entretanto Caracas é vista com cautela por Washington, mesmo sem ser prioridade para a Casa Branca há críticas pela condução política, bem como aos abusos dos direitos humanos o que já configurou busca por apoio em países vizinhos com o intuito de ampliar as sanções econômicas já impostas.

Com o apoio a novas sanções, o papel dos Estados Unidos viabiliza interferir na condição econômica e nos movimentos da administração de Nicolás Maduro, o que acaba por produzir efeito inverso, com maior controle governamental que consequentemente incita a agitações sociais inviabilizando a busca por estabilidade do país.

Entre as opções analisadas pela administração Trump, a série de sanções relacionadas à energia podem incluir restrição das exportações de petróleo leve e gasolina, proibição da venda de equipamentos relacionados ao petróleo à Venezuela, impedindo a importação de óleo bruto, responsável por significativa parcela de receitas operacionais e proibindo o uso de dólares para pagar as transações de petróleo.

No curto prazo, a perda no fornecimento de petróleo venezuelano para os Estados Unidos seria difícil de substituir, poderiam usar da Reserva Estratégica conjuntamente com a implementação de sanções de importação para evitar volatilidade dos preços, ou recorrer ao mercado global de qualidade compatível, canadense, mexicano, ou do Oriente Médio, o que exigiria em contrapartida prazos de envio mais longos e custos maiores.

Em uma conjuntura unilateral, a tomada de sanções por Washington a Caracas poderia ainda aumentar as chances de inadimplência da Venezuela em paralelo ao redirecionamento das exportações de óleo bruto a outros centros, como a Ásia o que afetaria empresas americanas com obrigações contratuais na Venezuela.

Por fim, a ingerência estadunidense poderá surtir efeito contrário ao desejado, ou seja, a imposição de sanções unilaterais possivelmente trará consequências políticas e geopolíticas, embora tal ação destina-se a atacar o regime de Maduro, há a oportunidade de enraizar o governo, com um inimigo externo para culpar pelas devastações econômicas e sociais, assim como prejudicar o alinhamento ocidental sobre o uso de sanções e enfraquecer a utilidade das medidas como ferramenta política de longo prazo.

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Victor José Portella Checchia. Bacharel em Relações Internacionais (2009) pela Faculdades de Campinas (FACAMP), Especialista em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito (EPD). Atuou em duas grandes multinacionais do setor de tecnologia e na área de Cooperação Internacional na Prefeitura Municipal de Campinas com captação de recursos externos, desenvolvimento de projetos na área econômica e comercial e buscando oportunidades de negócios para o município. Atualmente é analista de customer and demand plan para países da América do Sul, Central e Caribe.

Bibliografia

Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto. “Dependência e desenvolvimento na América Latina”. 8º ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.

Paulo Fagundes Vizentini. “A Venezuela de Chávez contra a corrente”.

 Wilson Cano. “Soberania e Política Econômica na América Latina”. Editora Unesp.

As Contradições da Democracia Liberal nas Eleições da Itália

Carlos Frederico Pereira da Silva Gama[i]

As contradições da globalização se chovaram novamente nas urnas da Europa. Como na França, a “nova política” da tecnologia e empreendedores derrotou partidos tradicionais[ii]. Como na Alemanha, nenhum partido conquistou a confiança da maioria dos eleitores[iii]. Como no Reino Unido, a União Europeia saiu das urnas com um expressivo revés[iv]. Como na Áustria, a extrema-direita e partidos de orientação fascista têm chances reais de ocupar postos no futuro governo de coalizão[v].

A Itália se mostrou a soma desigual de tendências de um mundo parcialmente globalizado em crise[vi].

O Movimento 5 Estrelas – crítico tanto da “corrupção sistêmica” da democracia implantada em 1945 quanto da unificação europeia consagrada no Tratado de Roma (1957) – obteve um terço dos votos. O partido mais votado da Bota debutará nos cargos diretivos. Numa performance que pôs um fim a seu mandato, o Primeiro-Ministro Matteo Renzi obteve menos de 1/5 dos votos, empatado com os separatistas da Lega Nord. Precursor do populismo milionário televisivo, o ex-Primeiro Ministro Silvio Berlusconi se contentou com modestos 14%. A esquerda italiana obteve uma de suas menores votações. Será praticamente invisível no novo Parlamento, o 66º que a Itália conhecerá em 73 anos[vii].

Em 2017, o país acolheu 30% menos refugiados, oriundos principalmente da Líbia e da Síria. A Itália participou do esforço militar europeu que levou à deposição e execução de Muammar Kadafi (2011) e, como os parceiros da integração europeia, sofre efeitos da guerra civil internacionalizada na Síria.

Ao contrário da Alemanha de Angela Merkel, que abriu portas e instaurou políticas de acolhimento a mais de 1 milhão de refugiados sírios como uma possibilidade de realento econômico na Europa pós-2008[viii], a Itália de Renzi manteve em curso as linhas da austeridade. Apesar do país manter taxas de crescimento acima de 1% ao longo do ano de 2017, os refugiados apareceram na campanha eleitoral como obstáculo à retomada do crescimento econômico. A escala dos que chegaram à Itália por terra e mar caiu de 180 mil pessoas para 119 mil pessoas, enquanto França, Suíça e Áustria dificultavam a chegava de novos solicitantes de refúgio em seus territórios[ix]. O Produto Interno Bruto permanece inferior ao de 2014 e a taxa de desemprego aumentou 60% após a crise de 2008[x].

Entre os extremos dos movimentos “não-políticos” e “anti-sistêmicos”, um dos berços da Europa se debruça sobre problemas comuns às democracias liberais, cuja crise é parte integrante do processo de reconstrução da ordem internacional após as duas guerras mundiais (1914-1945). Por um lado, relações de interdependência, normas multilaterais e as instituições internacionais criadas para assegurar relações e normas se acumularam[xi], num processo de aprendizado através das fronteiras. A União Europeia é um dos resultado ambiciosos desse processo de transformação na “organização internacional” (termo utilizado por David Mitrany[xii] durante a Segunda Guerra Mundial).

O sucesso dessas construções, porém, ocultou algumas consequências não-esperadas do processo de globalização que se aprofundou ao longo da Guerra Fria (1945-1989) – tais como o aumento da complexidade, a dificuldade para tomar decisões, a contestação crescente das instituições e normas em sua representatividade e eficiência. O término pacífico da Guerra Fria[xiii] e o fim prematuro da União Soviética motivaram previsões otimistas sobre o futuro, três décadas atrás[xiv]. Entretanto, a essas dificuldades veio se somar uma desilusão eleitoral amplamente compartilhada, marcada por acusações de corrupção e distanciamento progressivo entre sistemas políticos e sociedades civis. Paradoxalmente, esse quadro se estabeleceu após o aumento consistente da participação política na segunda metade do século 20. A persistência desses problemas de ação coletiva num mundo no qual somos levados a pensar globalmente e agir localmente foi agudizada pela crise econômica de 2008, a mais drástica desde o “crash” de 1929 que prenunciou uma nova guerra mundial.

Após se erguerem triunfantes sobre as dinâmicas da Guerra Fria, as democracias liberais se viram na situação desconfortável de reféns entre dois extremos. Por um lado, o desmantelamento dos mecanismos de ação estatal desenvolvidos no século XX foi feito em nome de um liberalismo radical, postulando a obsolescência do estado. O surpreendente cenário de estados dos bem-estar social em autodesconstrução foi complementado pelas crescentes tentações da autarquia, que impulsionaram populismos e autoritarismos, a prometer um mundo ceteris paribus[xv], onde variáveis globais podem ser convenientemente limadas dos sonhos de grandeza e prosperidade entre muros.

A análise dos resultados eleitorais na Itália chama atenção para a necessidade de fazer análises comparativas das democracias liberais – tanto na Europa quanto no outro lado do Oceano Atlântico. A contribuição de experiências compartilhadas pode ser decisiva para o futuro da democracia liberal num mundo que demanda sua reconfiguração, à luz dos desafios que dificultam a ação coletiva.

colaboradorCarlos Frederico Pereira da Silva Gama
Diretor de Assuntos Internacionais na Universidade Federal do Tocantins (2016-)
Doutor em Relações Internacionais pelo IRI/PUC-Rio (2011).
Mestre em Relações Internacionais pelo IRI/PUC-Rio (2005).
Bacharel em Relações Internacionais pela PUC-Minas (2002).
Professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do Tocantins (2015-)
Professor de Relações Internacionais no IRI/PUC-Rio (2008-2015)
 Vice Coordenador de Graduação (2012-2014)
 Vice Coordenador do BRICS Policy Center (2010-2011)
 Consultor Especial do BRICS Policy Center (2011-2012)
 Coordenador do núcleo de pesquisa Country Desks no BRICS Policy Center
(2014-2015)
 Editor da revista Cadernos de Relações Internacionais (2014-2015)
 Pesquisador associado do BRICS Policy Center (2015-)

[i] Diretor de Assuntos Internacionais e Professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do Tocantins (UFT)

[ii] Gama, Carlos Frederico Pereira da Silva (2017). “A Eleição Presidencial na França e a União Europeia em crise”. NEMRI. Disponível em: https://nemrisp.wordpress.com/2017/04/27/a-eleicao-presidencial-na-franca-e-a-uniao-europeia-em-crise/ . Acesso em: 27 de Abril de 2017.

[iii] Gama, Carlos Frederico Pereira da Silva (2017). “Unificação entre Contradições: Alemanha, Europa e as crises da globalização”. MUNDORAMA. Disponível em: https://www.mundorama.net/?p=24088 . Acesso em: 11 de Outubro de 2017.

[iv] Gama, Carlos Frederico Pereira da Silva (2015). “As eleições no Reino Unido e seus impactos nas relações econômicas internacionais”. Conjuntura Internacional, v.12, n.1, pp.7-10.

[v] Gama, Carlos Frederico Pereira da Silva (2017). “Desintegração de esperanças: a União Europeia em meio à crise das democracias liberais”. SRZD. Disponível em: http://www.srzd.com/geral/uniao-europeia-crise-democracias-liberais/ . Acesso em: 26 de Dezembro de 2017.

[vi] Gama, Carlos Frederico Pereira da Silva (2017). “Vitórias Inconclusivas: O Desgaste da Democracia Liberal”. NEMRI. Disponível em: https://nemrisp.wordpress.com/2017/07/25/vitorias-inconclusivas-o-desgaste-da-democracia-liberal/. Acesso em: 25 de Julho de 2017.

[vii] Mackay, Jamie (2018). “The Italian Elections Were a Victory for Trumpism”. Dissent Magazine. Disponível em: https://www.dissentmagazine.org/blog/italy-elections-victory-trumpism-league-five-star-movement-bannon . Acesso em: 05 de Março de 2018.

[viii] Gama, Carlos Frederico Pereira da Silva (2017). “Desintegração de esperanças: a União Europeia em meio à crise das democracias liberais”

[ix] Agence France-Presse (2017). “Italy’s migrant crisis saw a huge turning point in 2017”. PRI. Disponível em: https://www.pri.org/stories/2017-12-30/italys-migrant-crisis-saw-huge-turning-point-2017. Acesso em: 30 de Dezembro de 2017.

[x] Trading Economics. “Italy”. Disponível em: https://tradingeconomics.com/italy. Acesso em: 05 de Março de 2018.

[xi] Ruggie, John Gerard (1992). “Multilateralism: the Anatomy of an Institution”. International Organization, Vol.46, No.3, pp. 561-598.

[xii] Mitrany, David (1943). A Working Peace System: An Argument for the Functional Development of International Organization. Londres, The Royal Institute of International Affairs.

[xiii] Gaddis, John Lewis (1989). The Long Peace: Inquiries into the History of the Cold War. Oxford: Oxford University Press.

[xiv] Fukuyama, Francis (1992). The End of History and the Last Man. Nova York: Free Press.

[xv] Gama, Carlos Frederico Pereira da Silva (2017). “A Ceteris Paribus World? Economic Nationalism in the Age of Donald Trump”. Medium. Disponível em: https://medium.com/@CarlosFredericoPdSG/a-ceteris-paribus-world-economic-nationalism-in-the-age-of-donald-trump-47c358530b3c. Acesso em: 12 de Março de 2017.

Aumento do PIB e as dúvidas sobre a recuperação econômica do Brasil

Recentemente vimos como a mídia festejou o aumento do PIB do Brasil vaticinando o fim de uma recessão econômica, considerada uma das piores da história. Porém ao analisar o crescimento dos diferentes setores que compõe a economia, além de fatores importantes que refletem de forma direta e indireta, tais como o desemprego, trabalho informal e consumo, vemos que existem uma série de questionamentos em relação ao impacto desse resultado positivo na economia brasileira e principalmente na sua sociedade.

O ritmo do crescimento do PIB como forma de mesurar o aumento de uma economia tem sido fortemente criticado por autores como Amartya Sen e Thomas Pikkety, entre outros. Pois a soma do produto interno bruto dos diferentes países mesmo que trate de estabelecer uma forma padronizada e homogeneizada é incapaz de refletir dinâmicas inerentes de cada região, havendo uma distorção, que pode ser menor o mais elevada, conforme a própria composição da economia, os fatores endógenos e a qualidade das informações que circulam nesses contextos.

Também é importante ressaltar que uma análise anacrônica ou quantitativa de um determinado índice pode gerar uma concepção equívoca da realidade e uma obliteração da mesma. E não, não que eu esteja afirmando que não está havendo uma recuperação lenta e progressiva ou que o PIB não seja um parâmetro válido para avaliar esse processo, porém antes de falar de crescimento, é importante analisar não somente o dato de forma isolada, mas sua composição histórica ao longo de ao menos uma década e dessa forma compreender melhor a própria dinâmica dos ciclos econômicos típicos do sistema financeiro internacional que Marx atribuía a própria natureza do liberalismo.

É obvio que após uma profunda recessão qualquer dato positivo será bem recebido, porém antes de falar de crescimento é preciso contemplar uma etapa de recuperação e ainda falta bastante para que o Brasil possa de fato recuperar seus índices posteriores a crise.

Outro ponto importante ao falar do crescimento do PIB brasileiro é analisar quais foram os setores que cresceram. Conforme o IBGE, o agronegócio aumentou 13%, serviços 0,3 e indústria ficou estagnada. É fundamental saber analisar essas informações, pois o crescimento do agronegócio em um cenário positivo para as exportações, com uma moeda local desvalorizada, sem dúvidas gera um efeito positivo, por outro lado, o aumento da oferta no mercado local pressiona a inflação e impacta no consumo das famílias.

A leve recuperação do consumo ajudou a manter o fluxo econômico, porém é importante ressaltar o grau de endividamento familiar e as renegociações decorrentes da queda dos juros que geram um pequeno descanso para o bolso das famílias, mas que não necessariamente significa uma real ativação do consumo.

A paralização do governo (principalmente devido à crise política) e a suspensão de diversos projetos e programas, reduziram os gastos públicos, porém em um país como o Brasil, essa notícia ainda que possa gerar rendimentos a curto prazo, pode se transformar em uma caixa de pandora com o passar do tempo.

Pois é reconhecida a necessidade de infraestrutura para poder viabilizar o desenvolvimento econômico do país e o grande déficit que existe no Brasil. Nesse sentido as PPPS e PPIs formam importantes fontes de recursos, assim como a venda de diversas estatais, porém  somente o tempo será capaz de mostrar se houve uma estratégia econômica em relação a essas vendas geradoras de uma dinâmica positiva para a nação ou se foram apenas uma forma de tentar encher os cofres.

O desemprego é outro fator importante na hora de interpretar o significado dessa suposta recuperação econômica. O Brasil possuí um elevado grau de informalidade e não existe de fato um controle ou índice capaz de quantificar essa realidade e de indicar de forma precisa quantas pessoas vivem desse modo, tampouco existe um controle do perfil dos trabalhadores que podem ser duais (trabalham e exercem alguma atividade informal nas horas livres) ou até mesmo dos trabalhadores que integram os novos modelos de contratação. Fora a essa dificuldade estatística que enfrenta o Brasil é preciso somar que emprego não necessariamente significa uma melhoria real nos rendimentos, pois existe um abismo entre os ganhos reais da população e o custo de vida padrão das cidades brasileiras.

Sendo assim é fácil compreender porque muitas pessoas estão questionando o crescimento do Brasil, já que socialmente existem ainda muitas questões envolvidas, sejam em relação ao desemprego, ao baixo consumo ou a crescente deficiência de serviços por falta de recursos públicos e investimentos do governo.

Havendo uma discrepância entre a realidade macroeconômica da nação e a realidade microeconômica das pessoas, algo que se faz patente na obra de Thomas Pikkety e que vemos no nosso dia a dia.

Por último é fundamental visualizar a conjuntura global. A crise no Brasil coincidiu com uma forte queda no preço das commodities, baixa demanda internacional e uma redução das exportações que impactou na balança comercial, além da moeda (real) que estava mais valorizada que atualmente e com um elevado gasto público em todos os setores. Atualmente as commodities recuperaram seus preços, a balança comercial é positiva, o real está desvalorizado (incrementando a competitividade de nossos produtos) e o gasto público foi interrompido.

De modo que tal vez afirmar que o Brasil voltou a crescer não seja de fato uma realidade, o correto seria dizer que somente agora se inicia um ciclo de recuperação, mas que será necessário muito tempo e intervenções para transformar essa recuperação em um crescimento real e inserir a sociedade nesse processo sem defasar ao país ainda mais devido a uma baixa taxa de investimentos ou por terceirizar a estratégia de toda uma nação nas mãos do capital financeiro.

 

16508475_1856260734643784_2512335075699457974_nWesley S.T Guerra, Atua como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comércio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latino-americano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura e mestrando em Políticas Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Fundador do CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais.

Bibliografia:

O Capital no Século XXI, Thomas Piketty, Edição em 10-2014, coleção Temas e Debates, editor – Círculo de Leitores

On Economic Inequality, Amartya Sen. Expanded Edition, Oxford: Clarendon Press, 1997

Development as Freedom, Amartya Sem. Oxford: Oxford University Press, 1999

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estadísticas

Smart Cities no Interior, vantagem ou desvantagem?

Meu avô era fotógrafo. Consigo me lembrar de quando ele ia fotografar algum evento ou festa as expressões que ele usava: “Vou usar um filme de 400 asas, porque ele é mais flexível quanto à diferentes tipos de exposição à luz”, “Semana que vem eu já vou ter as fotos prontas… preciso comprar mais líquido revelador para isso!”. Hoje em dia, essas falas apresentadas para um jovem de 20 anos talvez não sejam compreendidas, já que a realidade é completamente diferente: Com o Snapchat, por exemplo, uma foto pode ser tirada, instantaneamente publicada em uma rede social, e deletada do aparelho após alguns segundos que foi visualizada. Hoje está tudo muito rápido, instantâneo e ao alcance de um clique.

Da mesma forma que o digital e as informações virtuais aumentaram a velocidade na sua divulgação e movimento de um aparelho para o outro, de uma página de internet para a outra, o mesmo padrão segue na área da arquitetura. Anteriormente, a forma de um prédio, os materiais usados nele, cores e outros elementos eram pensados para uma determinada função. Com a arquitetura moderna, que ocorreu nos anos 60 e 70, a planta de um estabelecimento era pensada de forma a ser o mais livre possível, para que esse espaço seja ocupado de diferentes formas e adaptável para novos futuros usos. A forma do prédio não segue mais a função que ele vai ter; ele é o mais neutro possível, se adapta.

“Em outras palavras: os espaços redesenham-se ao longo do tempo, estáveis enquanto ‘endereço’, móveis no tempo, ao se (re)organizarem como múltiplas ocupações, dentro de uma mesma materialidade. Mobilidade do tempo no espaço! E a arquitetura da vanguarda investiga essa moradia transitória, propõe possibilidades para ela, ocupando-se em reconhecer aquilo que seria permanente, o que poderia estar assegurado como corpo estável entre variáveis.

Corbusier, ao precisar o conceito de Planta Livre, é um dos arquitetos fundamentais na construção dessa investigação.” (BOGÉA, M., 2009, p.175)

Com o melhoramento das técnicas construtivas, negócios feitos com uma velocidade cada vez maior, melhoria na infraestrutura de transporte, o campo começa a perder lugar para a cidade: o índice de urbanização aumenta e há cada vez mais cidade e tecnologia despontado no espaço.

Frank Lloyd tem frases que servem inteiramente para que compreendamos a cidade contemporânea, ao afirmar que tudo vai ser cidade, porque esse padrão se organizará, e a ideia de uma urbanização total está presente no pensamento do Frank Llyoid.” (MEYER, 2015)

Juntamente com a urbanização de áreas rurais, o antigo conceito de “capital com recursos e interior sem” começa a mudar. As metrópoles começam a descentralizar suas fábricas, em direção ao interior. Tal impulso começa a tomar vulto na década de 70. Essa tendência é favorecida pelas políticas estaduais de descentralização. A melhoria da estrutura rodoviária, como consequência da instalação do Plano Rodoviário de interiorização do Desenvolvimento de 1972/75. Fora esses investimentos em infraestrutura de transporte, houve investimentos estaduais em pesquisa e tecnologia, principalmente na região de Campinas, com a construção da Unicamp (1965) e do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (CENA), que seria, no fim desta década, integrado à Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiróz (ESALQ) da USP, em Piracicaba (NEGRI, 1996, apud p. 75 e 76). Fora isso, houve investimentos estaduais e federais que proporcionaram, entre os anos 60 e 80 um crescimento significativo dessas cidades do interior, principalmente do interior de São Paulo. (OTERO, 2016, p.60)

“Com efeito, a localização da indústria no interior de São Paulo tendeu a favorecer municípios de porte médio, dotados de infraestrutura, próximos à malha viária, e mais distantes dos problemas crônicos das grandes cidades. Na verdade, muitos desses municípios de São Paulo já vinham crescendo em ritmo superior ao da área metropolitana.” (IPEA; IBGE; UNICAMP, 2002ª p. 41 apud OTERO, 2016, p.61).

Somados a esses fatores, o fato de as cidades de interior não estarem totalmente coladas umas às outras, existindo assim um espaço rural entre elas, possibilita que sejam urbanizadas seguindo diretrizes sustentáveis, sendo, portanto, respeitosas ao meio ambiente e agradáveis aos usuários. Uma dessas diretrizes é a de orientar o desenvolvimento pensando no transporte em primeiro plano.

“Incentivar o uso dos transportes não motorizados e dos transportes públicos como alternativa aos automóveis é uma questão central na busca de um  desenvolvimento mais sustentável. (…)Nesse sentido, o desenvolvimento urbano orientado ao transporte sustentável sugere, entre outros fatores, que os territórios sejam ordenados de maneira a reorganizar os lugares onde ocorrem as atividades quotidianas possibilitando o uso eficaz dos transportes públicos e dos modos não motorizados.” (SCHMIDT, 2015)

Todavia, atualmente não se pode pensar apenas no tempo de deslocamento de um ponto A para um ponto B. A qualidade deste deve ser levada em conta: por exemplo: da minha casa ao trabalho, posso ir de carro (10 minutos) ou de bicicleta (20 minutos); pensado puramente em tempo e economia dele, eu escolheria o carro. Porém, esta análise é quantitativa; com as longas jornadas de trabalho de hoje em dia, em que não se há tempo para exercício físico, em que se fica dentro de um escritório com ar condicionado o dia todo, talvez esses 10 minutos a mais gastos, pedalando, seja o tempo necessário para proporcionar liberação de endorfina neste empresário, o que reduzirá níveis de stress e o deixará mais focado e produtivo. Além disso, a bicicleta polui menos o meio ambiente. Mas como conciliar transporte público ou não motorizado com as atividades e horários fixos que temos em nossas rotinas? Devemos pensar apenas nas distancias entre dois locais?

E se o planejamento urbano fosse além da lógica do espaço e fosse pensado também como uma questão de tempo? É o que sugere James Faulconbridge, geógrafo e economista, pesquisador da Universidade de Lancaster. (…) Nesse contexto, o que influencia a escolha modal não é apenas a distância entre as diversas atividades, mas o efeito combinado da distância entre elas e suas temporalidades. (…)Mas como isso pode se traduzir na prática do planejamento urbano? Poderiam as políticas públicas agir para reorganizar essas temporalidades de maneira a encorajar o uso dos transportes públicos e dos modos não motorizados? Os pesquisadores acreditam que sim. Por exemplo, as políticas de educação poderiam flexibilizar os horários escolares e associá-los às políticas do trabalho, que tornariam obrigatória a organização e a flexibilização dos horários de trabalho possibilitando sua vinculação às demais práticas quotidianas. Desta forma, essas intervenções poderiam possibilitar a criação de “matrizes espaço-temporais facilitadoras”, ou seja, possibilitar orientações espaço-temporais propícias aos deslocamentos a pé, de bicicleta ou em transportes públicos. (SCHMIDT, 2015)

Essa flexibilização das atividades entra em concordância com tendências contemporâneas: aumento do número de serviços prestados por start-ups (que possuem jornada de trabalho mais flexível); incentivo das empresas a atividades saudáveis por parte de funcionários (bonificação para quem vai ao trabalho de bicicleta, quem perde peso, participa de corridas, etc); agenda virtual, que organiza em tempo real cronogramas; e a necessidade de mudanças de alguns sistemas muito ortodoxos ou que sejam exclusivamente orientados pelo lucro, pois o planeta e as pessoas estão colapsando.

Portanto, matrizes que gerenciem infraestruturas de transporte com eficácia, seja por aplicativos, painéis informativos, é uma discussão coerente com as necessidades contemporâneas. Esse gerenciamento não se restringe somente aos meios de transporte, mas se estende à gestão da produção de lixo, iluminação pública, educação, saúde, entre outros. Uma cidade inteligente, ou smart city é uma cidade que usa da tecnologia para proporcionar uma cidade mais respeitosa ao meio ambiente mas também mais agradável aos cidadãos, com mais qualidade de vida. Todas as ferramentas e plataformas digitais de hoje são/serão ferramentas para que os cidadãos possam participar na gestão da cidade, de forma que ela seja geria de baixo pra cima, ou seja, com representatividade popular. Além disso, a esfera pública deve gerir e filtrar as parcerias com instituições provadas, que são tão importantes, para garantir que a busca pelo lucro, nessas parcerias, não signifique exclusão social. O caminho não é em direção à uma cidade como a dos Jetsons, mas sim uma cidade humana, para pessoas, com pensamentos, sentimentos e ações.

O perigo dessa “tecnologização” é o de alienar as pessoas. Gerar urbanidades e relações interpessoais através da tecnologia pode parecer uma iniciativa paradoxal. A tecnologia por si mesma, contudo, não é uma preocupação; a criação de espaços físicos que incentivem a socialização é um dos pontos chave para o sucesso na humanização. Nesse sentido, as cidades do interior apresentam uma vantagem em relação as cidades grandes: menores distâncias, menor aceleração nas atividades, menor poluição e transito e mais espaços não conturbados entre as cidades, como potenciais de novas regiões urbanas sustentáveis a serem explorados. As cidades do interior não devem ser vistas como espaços serventes das cidades grandes, ou locais com falta de infraestrutura, mas sim como locais com muita potencialidade, com identidade e humanidade.

Bibliografia:

  • MEYER R. Palestra da Semana de Arquitetura, IAU USP, 2015
  • BOGEA M. Cidade Errante, Arquitetura em Movimento. Editora Senac, 2009. São Paulo, 248 p.
  • SCHMIDT, Luiza – Planejamento urbano e mobilidade sustentável: uma questão de tempo? In Archdaily Brasil [Online], 2015
  • ITDP (Instituto de Pesquisa de Transporte e Desenvolvimento). Padrão de Qualidade TOD v2.0. Logos Gráfica, 2013, 78 p.
  • OTERO, E. V. Reestruturação urbana em cidades médias paulistas: a cidade com
    o negócio
    . Tese de Doutorado. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2016, 342 p.

Autor:

perfil

Filipe Rocha de Abreu, Arquiteto e Urbanista formado pela Universidade de São Paulo, Campus São Carlos (IAU USP). Intercâmbio Acadêmico na Instituição Francesa École Nationale Supérieure d’Architecture de Grenoble. Filipe é interessado pelas dinâmicas interpessoais nos espaços urbanos, participou em projetos de Smarcities em Ilha Solteira (SP) e Água Cumprida (MG). Além disso, apresenta interesse no estudo de idiomas e nas interações entre pessoas de diferentes culturas.

 

 

A democratização do ódio

Toda interação entre dois ou mais indivíduos é pautada por uma série de códigos, normas e regras de conduta. O processo de comunicação é algo inerente do ser humano. Não importa o código no qual é feito e o contexto político, cultural ou religioso onde se desenvolve.

O homem precisa se comunicar e dessa forma consolidar as dinâmicas sociais intrínsecas de cada contexto no qual se desenvolve socialmente, porém é necessário haver um critério básico capaz de promover o intercâmbio e fluxo dessas informações, mas ao mesmo tempo garantir uma continua coesão social. Ou seja, a liberdade de expressão é pautada e limitada pela necessidade de coesão social e pelos critérios construídos pela sociedade que orientam as pessoas em seus processos comunicativos… assim surgem os tabus, os palavrões, as blasfêmias, a apologia, como elementos adversos… o que é certo ou errado de falar… sejam em situações cotidianas como no trabalho, em situações eventuais tais como a morte de um ser querido ou em discursos e diálogos perante a comunidade…

O mundo comunicativo é limitado pelo normativo e pela sociedade que utiliza vários recursos para orientar essa liberdade mediante construções sociais e normas, sejam estas instituídas ou não.

Ou seja, a própria liberdade de expressão não existe já que o próprio ser humano estabelece regras que limitam o que “deve ser dito” para manter uma harmonia e coesão social.

Esses limites não surgiram apenas com a implementação de regimes autoritaristas, mas podem ser vistos ao longo da história em diferentes escalas, na religião, nas regras de conduta, na ética de diversas profissões, nas normas morais, nos costumes…  Alguns desses limites foram normatizados pela legislação de alguns países, assim… a apologia ou discurso a favor de um determinado regime é proibido, as injurias em relação a pigmentação das pessoas, a defesa da violência contra uma pessoa ou grupo de pessoas, a difamação, etc…

O direito de uma pessoa que convive em sociedade se delimita ao se deparar com o direito do próximo, e isso também está presente no processo comunicativo… O direito de liberdade de expressão e opinião não é um salvo-conduto para ferir ao próximo, uma vez que este também possuí direitos tais como sua integridade física e psicológica, além da sua dignidade e outros direitos protegidos pela lei.

De modo que tanto o senso comum quanto a norma jurídica indicam os limites da comunicação e do discurso com o objetivo de manter uma certa harmonia social… já que não existe um consenso de opiniões entre as pessoas, mas sim a necessidade de priorizar o respeito que alicerça o convívio da diversidade de opiniões.

Infelizmente na Era da Telecomunicações, a polarização política e a ação monopólica dos grandes grupos mediáticos geraram um novo conceito de comunicação e abriram espaço para a fragmentação do diálogo, criando um mundo de monólogos e discursos direcionados.

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A Internet forneceu a falsa sensação de liberdade incondicional dos discursos, reforçada pelo sentimento de anonimato ou impunidade. Mas ao mesmo tempo gerando uma espécie de recompensa para aqueles que provocam maior polêmica.

Na política a polarização destruiu o tão necessário diálogo político entre os diferentes representantes do povo, para substituir a mesma por um ring de luta e acusações, de insultos e discursos, que em nada tem a ver com a atividade política de uma pessoa ou sua relação para com seu eleitorado, mas sim, uma motivação pessoal, sem limites em um mundo onde o verbal ganhou uma nova dimensão.

As notícias falsas, as interpretações manipuladas por interesses econômicos, o sensacionalismo, se transformaram na realidade das televisões, jornais e portais de todo o mundo… estes canais não se limitam em informar, mas sim, tentam transmitir e reforçar um discurso que beneficia aos grandes grupos mediáticos que investem em diferentes setores, interesses políticos, formação de opinião, etc. Atuando como o já conhecido 4º poder…

O ódio foi democratizado… já não existem regras…. e o direito não consegue acompanhar essas mudanças… tampouco o senso comum… não sendo um processo exclusivo do Brasil mas presente no mundo inteiro… O diálogo está cada vez mais difícil…

Líderes com discursos cada vez mais radicais tais como Trump, Rodrigo Deturte, Vikor Orban, Vladimir Putin… que falam abertamente e sem pensar nas consequências que cada uma das suas palavras produz no cenário internacional e regional. Personagens que antes seriam ignorados pela sociedade, ganham força e centenas de seguidores graças as redes sociais e a essa polarização e reprodução de discursos carregados de ódio e limitados em argumentos, ex-atores pornográficos, futebolistas, comediantes, participantes de reality shows, grupos e movimentos movidos pela busca de poder…

O ódio é o vetor desse momento disruptivo da comunicação… ele não somente foi democratizado como espalhado graças as redes sociais e a evolução das telecomunicações…  E não porque a evolução da tecnologia seja prejudicial… tudo pelo contrário seria de grande ajuda se os meios de comunicação fossem utilizados de forma ética e construtiva orientados para fomentar uma grande coesão social a nível mundial… porém foi o ódio que encontrou esse caminho… falsas notícias, discursos fundamentalistas, apologia a crimes, ataque a indivíduos e grupos de pessoas… um retrocesso continuo sem limites… Uma sede constante de continuar alimentando esse fluxo e continuar esse ciclo… Tanto que leva a uma suposta socialite a mais de 10.000 Km a criticar uma criança, se considerando imune a um crime e livre de falar…

Pois este é o maior erro de todos…. confundir o ódio… com a liberdade….

 

Bibliografia:

Language and Politics, Noam Chomsky

MÍDIA: Propaganda política e manipulação, Noam Chomsky

Semiótica e filosofia da linguagem, Umberto Eco.

Race et Histoire, Levy Strauss

Modernidade Liquída, Zygmunt Bauman

O impacto das novas tendências de consumo alimentar pós-industrialização nas relações internacionais

Ao analisarmos as novas tendências de consumo a nível mundial é inevitável notar, além do consumo da moda e de produtos eletrônicos, o setor de alimentação como um dos principais fatores que movem a indústria capitalista.

Sabemos que a modernidade e a globalização provocaram mudanças de hábitos na população mundial. Ainda focando no consumo alimentar, a facilidade aos produtos industrializados e de rápido preparo, nas metrópoles, reflete a adaptação do homem à uma rotina de produção acelerada ligada a uma grande e prática oferta de alimentos a qualquer hora do dia.

Impactos

Porém, os efeitos colaterais deste consumo começaram a ser destacados conforme a mudança acontecia e a agenda sobre o meio ambiente ganhava destaque. Como esquecer a Rio 92 e demais eventos do tipo acontecendo após os anos 90?

Sem entrar na questão de saúde relacionada à qualidade dos alimentos, é importante que o indivíduo tenha uma consciência macro sobre os padrões alimentares que participa. Neste sentido, analiso aqui a continuidade e impactos do atual sistema, além de mostrar novas tendências.

Uma linha ambientalista defende a ideia que a  sociedade contemporânea deve mudar o paradigma antropocêntrico ainda predominante para uma visão de mundo biocêntrica, comprometida com a natureza e a sustentabilidade.

Segundo Morin e Kern (2003, p. 79), “o mito do desenvolvimento determinou a crença de que era preciso sacrificar tudo por ele”.

Os padrões de consumo impostos pelo sistema capitalista devem ser revistos, sob pena de inviabilizar a continuidade da vida no planeta. Muito tem se falado que o planeta não vai sobreviver se houver o predomínio das leis do mercado. Assim, surge a preocupação com modelos sustentáveis de desenvolvimento, onde haja a conciliação entre o desenvolvimento econômico e a preservação do meio ambiente (Gomes, 2006).

Tendências

Na pré história o homem caçava para se alimentar e seguia padrões de agricultura diferentes do mundo atual. Hoje não temos mais que nos programar para colheitas e ou hora para pegar as armas e correr atrás da “mistura”. Todos esses produtos estão na gôndola do supermercado com uma farta variedade para todos os tipos de dieta.

Como mudança comportamental, baseada em dados, observa-se no primeiro mundo, a partir dos anos 80, uma tendência em reduzir o consumo de carne vermelha, principalmente nas famílias com maior poder aquisitivo. Na França, por exemplo, uma pesquisa mostra que este alimento perdeu grande parte de seu poder simbólico[1]. Em 1985, 23% dos entrevistados concordava que a carne é indispensável ao equilíbrio alimentar. Em 1987, somente 19,6% afirma esta mesma opinião e 67% acha que seu consumo de carne de boi é demasiado, necessitando de uma redução (Bleil, 1998).

Você provavelmente lembrou das correntes vegetarianas e veganas sobre o consumo de carne. Tal fato se deve pois tais correntes relacionam a degradação do meio ambiente com a produção agropecuária e pesca. Neste sentido, voltamos a visão macro do sistema atual com os seguintes dados:

  • Gases do efeito estufa: A agricultura animal é responsável por 18% das emissões de gases de efeito estufa, mais do que o escapamento combinado de todos os transportes.[2]
  • O escapamento de transportes é responsável por 13% de todas as emissões de gases de efeito estufa. As emissões de gases com efeito de estufa deste setor envolvem principalmente combustíveis fósseis queimados para transporte rodoviário, ferroviário, aéreo e marítimo.[3]

    ●     As vacas produzem 150 bilhões de galões de metano por dia.[4]

  • O consumo de água em agricultura animal varia entre 34-76 trilhões de galões por ano.[5]
  • São necessários 2.500 galões de água para produzir 1 libra de carne bovina.[6]
  • Agricultura animal é a principal causa de extinção de espécies, zonas mortas do oceano, poluição da água e destruição do habitat.[7]

O vegetarianismo e veganismo são apenas um exemplo em foco. Temos também o consumo baseado “pegada de carbono” onde o ideal seria mitigar a produção de carbono consumindo produtos de produtores próximos à você, tendo hábitos mais saudáveis e sustentáveis de modo geral (GFN).

Outro assunto em foco é o consumo de agrotóxicos, alimentos transgênicos e hormônios adicionados nos alimentos. Todos estes temas oriundos de análises de produção e consumos atuais, relativos à saúde do indivíduo e do planeta.

Certamente que diversos locais no globo possuem infra estruturas precárias e a fome e a miséria são realidades para essas populações. Neste caso tais tendências não são aplicáveis por muitos motivos, como o solo pobre e recursos limitados e são assuntos para outro debate construtivo.

O que se nota é o desafio do desenvolvimento sustentável, que visa o equilíbrio entre o desenvolvimento socioeconômico atendendo a demanda mundial e a preservação do meio ambiente. Diz-se o termo “desenvolvimento sustentável”  englobando aspectos econômicos, sociais e ambientais, expressos no Relatório Brundtland como o “desenvolvimento que atende às necessidades do presente, sem comprometer a capacidade de as futuras gerações atenderem às suas próprias necessidades” (MOUSINHO, 2003, p. 348).

Na visão macro uma vez mais, percebe-se a necessidade de se buscar uma nova ética, regida por um sentimento de preservação da natureza. A ética agora volta-se principalmente para a sua interrelação com o planeta. De modo que é necessária a construção de uma ética ambiental voltada ao futuro, para que o direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado possa ser assegurado para as presentes e futuras gerações (SIRVINSKAS, 2002, p. 307).

 As Relações Internacionais

Agora tratando das relações internacionais e câmbio entre os países, como fica a mudança nas balanças comerciais diante do cenário em questão?

Como isso pode ajudar a estabelecer novos laços comerciais ou impactar nas exportações e consumo?

“O Brasil detém o segundo maior rebanho comercial do mundo e é o maior exportador mundial. É ainda o segundo em quantidade de equivalente carcaça produzida, perdendo somente para os Estados Unidos da América do Norte em volume produzido. A produção de equivalente carcaça aumentou mais de 20% enquanto as exportações quadruplicaram. Aproximadamente 140 países compram hoje a carne bovina brasileira, a qual é literalmente “comprada” já que poucos esforços no sentido de promover nosso produto no exterior vêm sendo feitos, com exceção dos últimos dois anos quando um movimento ainda modesto de divulgação começou junto aos principais importadores. Os exportadores brasileiros terão que começar a se preocupar em divulgar o produto brasileiro se quiserem aumentar ou até mesmo manter o atual volume exportado, principalmente com a retomada das exportações de importantes concorrentes do Brasil, como a Austrália e a Argentina. Apesar de ser o líder mundial em tonelagem de carne bovina exportada, o país tem uma renda relativamente baixa, já que não exporta para os mercados de maior valor agregado, pois, além da questão da presença de aftosa nos rebanhos, a carne brasileira, segundo alguns importadores, não é considerada de boa qualidade.”(Filho, 2006)

Ainda destacando o papel do Brasil no agronegócio, o país vive a expectativa de ultrapassar os Estados Unidos em área cultivada de soja e tornar-se o principal produtor mundial do grão. Hoje a produção  de soja e milho supre sua cadeia produtiva de carnes e permite exportar produtos das cadeias produtivas de ambos os grãos, com destaque para a exportação de soja em grão. Neste item especificamente o país assume o status de principal exportador mundial (Lorini, 2016).

Atualmente nos supermercados existem centenas de produtos cuja formulação possui um ou mais ingredientes à base de soja, destaca-se o óleo de soja, que atende cerca de 85% da demanda nacional por óleo alimentício (UNITED STATES, 2016).

Importante destacar também as bebidas à base de soja (BBS), que atendem os novos conceitos de alimentação e consumidores com intolerância à lactose. Empresas alimentícias que antes produziam somente derivados lácteos ou sucos de frutas, agora estão produzindo as BBS. Além disso, no setor energético, o óleo de soja tem sido responsável pelo sucesso do Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB), suprindo mais de 75% da produção nacional do biocombustível em 2015 (BOLETIM MENSAL DO BIODIESEL, 2016).

Analisando as informações é possível notar a maior possibilidade de a soja ganhar mais mercados que a carne bovina, devido qualidade e demanda de mercado.

Não será possível neste texto comparar a relação comercial do Brasil com todos os países. Porém pego como exemplo rápido a Índia, parceira comercial, considerada país emergente como o Brasil, com semelhanças culturais e econômicas:

Principais produtos exportados de 2002 a 2012 (porcentagem) – Brasil – Índia

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Tal gráfico confirma os dados sobre o potencial da soja no Brasil e, apesar de a Índia não consumir carne bovina, não há dados relevantes de demais itens da pecuária, que foram substituídos por produtos semimanufaturados neste caso.

Principais produtos importados de 2002 a 2012 (porcentagem) – Brasil – Índia

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Ao analisarmos a importação com a Índia, confirmamos o foco em produtos semimanufaturados e sem dados relevantes para a pecuária.

Conclusão

Percebe-se, porém, ainda que de forma muito restrita, a relação dos novos costumes com as tendências e pensamentos pós-industrial, quanto à relação com o meio ambiente e qualidade do alimento.

Em tempos em que a informação chega aos lugares mais inóspitos, compreende-se que por um lado, a procura por alimentos de fácil preparo continue e, por outro, a necessidade, ainda tímida, de cuidar melhor das escolhas alimentares, visando a continuidade de um sistema capitalista, porém sustentável.

No caso das Relações Internacionais, as balanças comerciais com certeza se adaptarão à demandas do globo. Cabe aos diplomatas identificarem os melhores parceiros de acordo com sua identidade e fomentar demais projetos alinhados com seus objetivos, as negociações sempre ocorrerão, não importa o produto.

Independentemente do seu estilo de vida, sua opção alimentar ou preocupação com o planeta, o conceito “Pensar Globalmente e Agir Localmente” de Ulrich Beck resume bem o momento atual e o surgimento de alternativas ao atual sistema:  uma busca por aproximação entre colaboração, Solidariedade e participação, imbricadas na questão ambiental.

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Veruska Clednev formou-se em Relações Internacionais na Universidade Paulista e atualmente atua como secretária executiva trilíngue. Enquanto formanda foi diretora voluntária de Comunicação e Marketing do Conselho Institucional dos Estudantes de Relações Internacionais da UNIP. Adepta do veganismo, divide seu tempo livre entre descobrir novos restaurantes veganos (não é boa com receitas), seus estudos sobre a Índia, empoderamento feminino, viagens e tudo que envolva sua maior paixão: as Relações Internacionais. Também pratica natação e participa de campeonatos, um exemplo de que é possível ser vegana e esportista.

Bibliografia:

A máquina e a revolta: as organizações populares e o significado da pobreza. São Paulo, Brasiliense, p.174.

Bleil, Susana Inez. “O padrão alimentar ocidental: considerações sobre a mudança de hábitos no Brasil.” Cadernos de Debate 6.1 (1998): 1-25.

de Souza, Elaine Goncalves Weiss, and Eliana Maria de Senna do Nascimento. “Direito ambiental planetário e transnacionalidade: uma possibilidade de correção da deterioração do planeta.” Revista Justiça do Direito 27.1 (2013): 161-188.

GOMES, Daniela Vasconcellos. EDUCAÇÃO PARA O CONSUMO ÉTICO E SUSTENTÁVEL. REMEA – Revista Eletrônica do Mestrado em Educação Ambiental, [S.l.], v. 16, set. 2012. ISSN 1517-1256. Disponível em: <https://www.seer.furg.br/remea/article/view/2778/1567>.

Lorini, Irineu. “Qualidade de sementes e grãos comerciais de soja no Brasil-safra 2014/15.” Embrapa Soja-Documentos (INFOTECA-E) (2016).

Luchiari Filho, Albino. “Produção de carne bovina no Brasil qualidade, quantidade ou ambas.” SIMPÓSIO SOBRE DESAFIOS E NOVAS TECNOLOGIAS NA BOVINOCULTURA DE CORTE-SIMBOI 2 (2006).

“Sombra Longa de Pecuária: questões e opções ambientais”. Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação. Roma 2006

[1] antigamente a carne além de representar prestígio social, era considerada um alimento forte e bom para a saúde. Bleil, Susana Inez (1998)

[2] “Sombra Longa de Pecuária: questões e opções ambientais”. Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação. Roma 2006

[3] Agência de Proteção Ambiental. “Dados globais sobre emissões de gases de efeito estufa”.

[4] Ross, Phillip. “Vaca Farts tem” maior impacto do gás estufa “do que o pensamento anterior, o metano empurra a mudança climática”. International Business Times. 26 de novembro de 2013.

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[5] “Resumo do uso estimado de água nos Estados Unidos em 2005”. Serviço Geológico dos Estados Unidos.

Pimentel, David, et al. “Recursos hídricos: questões agrícolas e ambientais”. BioScience. (2004) 54 (10): 909-918

[6] Robbins, John. “2.500 galões todos molhados?” Earth Save: Healthy People Planeta saudável.

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[7]“Depleção de água doce: Realidades de escolha”. Comfortablyunaware: Depleção Global e Escolha de Escolha de Responsabilidade. 25 de novembro de 2014

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O papel da mulher nas Relações Internacionais contemporâneas

Por Irany Assis*

As questões de gênero são primordiais na busca pela igualdade nas Relações Internacionais, como em todos os setores. De acordo com a área da psicologia e da neurologia, as mulheres têm habilidades verbais e os homens possuem habilidades espaciais e aritméticas. Já na comunicação, a linguagem masculina é objetiva, concisa e instrumentalizada. Enquanto a feminina é elaborada, indireta e afetiva. O campo da administração considera relevantes as diferenças robustas entre homens e mulheres no que tange a fatores de risco, confiança excessiva, comportamento competitivo e liderança.

A identidade institucional de corporações como o Exército, a Marinha e a Aeronáutica, ainda é heteronormativa. O debate sobre a questão de gênero e poder é essencial para avançar na conscientização e busca pela equidade. Pouco se sabe sobre a participação efetiva de mulheres em lutas armadas e sua participação em confrontos, guerras e guerrilhas na linha de frente. Visto que os textos evidenciam a virilidade e a honra, a presença das mulheres é cada vez mais significativa e numerosa, desestabilizando a hegemonia e provocando reflexão na sociedade.

Desde 1990 a diferença salarial entre homens e mulheres diminui, porém, ainda não atingiu o nível de equidade. O IDG (Índice de Desigualdade de Gênero) possibilita uma análise quantitativa das desigualdades ao nível do gênero. O cálculo segue quatro etapas básicas com os seguintes indicadores: TMM (Taxa de mortalidade materna), TFA (Taxa de fertilidade adolescente), PR (Distribuição dos assentos parlamentares por sexo), ES (Sucesso escolar) e TPMT (Taxa de participação no mercado de trabalho).

De acordo com o IDG de 2016, divulgado pelo Fórum Econômico Mundial, são analisadas as diferenças de oportunidades entre homens e mulheres em 144 países.

Igualdade de Gênero

Ranking Países
Islândia
Finlândia
Noruega
Suécia
Ruanda
Irlanda
Filipinas
Eslovênia
Nova Zelândia
10º Nicarágua
15º África do Sul
45º Estados Unidos
75º Rússia
79º Brasil
87º Índia
99º China
144º Yemen

Fonte: Relatório do Fórum Econômico Mundial de 2016 (Elaboração própria)

Embora a discussão sobre a igualdade de gênero seja um tema globalizado, os avanços para a diminuição sociais diminuíram e em 2016 atingiram o maior nível de disparidade desde 2008. Desta forma, a igualdade desejada levará 170 anos para ser concretizada, sendo que o relatório anterior previa 118 anos.

Amartya Sen (141:2010) afirma que o fenômeno da mortalidade e das taxas de sobrevivência artificialmente são mais baixas para as mulheres em muitas partes do mundo. Esse é um aspecto cruel e visível da desigualdade entre os sexos, que com freqüência se manifesta sob formas mais sutis. Apesar disso, as taxas de mortalidade artificialmente mais elevadas para as mulheres refletem privação de sua capacidade.

igual-equi

A aplicação da Teoria dos Jogos numa análise de estratégia metodológica auxilia o entendimento e influência no processo decisório de acordo com o gênero. O Jogo do Ultimato (JU), por exemplo, faz com que o proponente apresente uma proposta para uma divisão e assim, o respondente a aceita ou rejeita. A resposta positiva divide o valor de acordo com a proposta, já a negativa, faz ambos perderem e não receberem nada desta divisão.

Pesquisadores da área comportamental utilizam o formato deste jogo para avaliar se as pessoas estão dispostas a sacrificar algum valor financeiro a fim de reduzir a desigualdade ou punição de um comportamento injusto; ou se têm capacidade de antecipar quem está disposto a aceitar ofertas menos ou mais equitativas.

Princípios de Empoderamento das Mulheres (WEPs)

O Pacto Global das Nações Unidas (UNGC) juntamente com a Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e Empoderamento das Mulheres (ONU Mulheres) criaram alguns princípios – Women’s Empowerment Principles, em inglês – para o meio empresarial atuar com igualdade no mercado de trabalho. São eles:

  1. Liderança Promove Igualdade de Gênero

Apoio ao desenvolvimento de políticas dirigidas à igualdade de gênero e direitos humanos;

Estabelecer metas e objetivos para a igualdade em toda a empresa e incluir progressos como fator de análise;

Envolver stakeholders no desenvolvimento de políticas, programas e planos de implementação;

Assegurar que todas as políticas sejam sensíveis às questões de gênero e que a cultura corporativa avance rumo à igualdade e inclusão.

  1. Oportunidades Iguais, Inclusão e Não-discriminação

Remuneração igual para os mesmos cargos independente de gênero;

Assegurar políticas e práticas no local de trabalho livres de discriminação;

Implementar práticas de recrutamento e retenção de talentos com recorte de gênero;

Assegurar a participação suficiente de mulheres em cargos de tomada de decisão;

Oferecer opções de trabalho, licenças e oportunidades flexíveis;

Apoiar acesso ao cuidado de filh@s e dependentes.

  1. Saúde, Segurança e Ausência de Violência

Considerar impactos diferenciados sobre mulheres e homens;

Estabelecer uma política de tolerância zero a todas as formas de violência no trabalho;

Garantir acesso igualitário a tod@s @s funcionári@s;

Respeitar os direitos para licenças e acompanhamento médico;

Identificar e abordar questões de segurança;

Capacitar colaboradores para identificar sinais de violência contra as mulheres.

  1. Educação e Treinamento

Investir em políticas e programas para incentivar mulheres a ocupar postos geralmente masculinos;

Assegurar a igualdade de acesso a programas de educação e capacitação;

Proporcionar capacidades iguais para o desenvolvimento de networking e acesso a mentoring;

Apresentar vantagens para investimento no empoderamento das mulheres.

  1. Desenvolvimento Empresarial, Cadeia de Fornecimento e Práticas de Comercialização

Expandir as relações de negócios com empresas lideradas por mulheres e empreendedoras;

Apoiar ações de crédito sensíveis a gênero e soluções;

Solicitar a parceiros de negócios que respeitem o compromisso com o avanço da igualdade e inclusão;

Respeitar a dignidade das mulheres em todas as ações de comunicação e marketing;

Assegurar que produtos e serviços não sejam utilizados para tráfico humano, exploração de trabalho ou sexual.

  1. Liderança e Engajamento Comunitário

Liderar pelo exemplo;

Utilizar sua influência para defender a igualdade de gênero e colaborar com parceiros de negócios;

Trabalhar com membros da comunidade para eliminarv a discriminação e a exploração, criando oportunidades para mulheres e meninas;

Promover e reconhecer a liderança das mulheres e sua contribuição;

Utilizar programas filantrópicos e de concessão de bolsas para apoiar o compromisso da empresa com a inclusão, igualdade e os direitos humanos.

  1. Transparência, Medição e Prestação de Informações

Tornar públicas as políticas da empresa e o plano de implementação para a promoção da igualdade de gênero;

Estabelecer metas quantitativas para a inclusão das mulheres em todos os níveis;

Medir e publicar relatórios sobre os progressos com dados segmentados por sexo;

Incluir indicadores de gênero nos relatórios obrigatórios.

A participação das mulheres de forma plena na vida econômica é essencial para atingir as metas acordadas em nível internacional para o desenvolvimento, sustentabilidade e direitos humanos. Com isto, impulsiona a realização das Metas de Desenvolvimento do Milênio. Entretanto, as mulheres continuam enfrentando discriminação e exclusão nos processos de decisão.

Estes princípios refletem também os interesses governamentais e da sociedade civil, apoiando a interação entre os stakeholders. Algumas empresas já mudaram sua política de gênero, como: Safaricom, Novo Nordisk, MAS Holdings, Alcatel-Lucent, Rio Tinto, Symantec, ExxonMobil, Gap Inc, Calvert Investments e Yahoo.

A capacitação de mulheres e meninas é o único caminho para que a questão de gênero saia do discurso. Os ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável) têm como meta os 17 objetivos globais aprovados no plano de ação para promover o desenvolvimento sustentável e a erradicação da pobreza. A ONU Mulheres lançou a iniciativa global “Por um planeta 50-50 em 2030: um passo decisivo pela igualdade de gênero” em apoio à Agenda 2030. Para consolidar este plano é necessário que mulheres, homens, sociedade civil, governos, empresas, academia e meios de comunicação trabalhem em conjunto para alcançar a equidade.

Glossário Feminista

O feminismo é o movimento que luta pela equidade social, política e econômica entre os gêneros. Este, ao contrário do machismo, busca condições de igualdade para ambos, e não de superioridade. Novos termos surgiram com esta ação:

Bropropriating: conceito para o comportamento dos homens que se apropriam de ideias de mulheres utilizando-as sem o devido crédito.

Empoderamento: simultaneamente um processo e resultado na aquisição de ferramentas e atribuições de combate a opressões, fortalecendo as pessoas, independente de gênero, para desconstruir papéis impostos pela sociedade e auxiliar na luta por equidade.

Equidade: do latim aequitas, refere-se a capacidade de apreciar e julgar com retidão, imparcialidade, justiça e igualdade. Analisa de forma justa e imparcial cada caso, para que não haja desigualdades e injustiças.

Gaslighting: forma de abuso psicológico ou violência emocional, no qual o abusador omite, distorce ou inventa informações ou dados fazendo com que a vítima duvide de sua própria memória percepção e sanidade.

Gênero: é relacional e refere-se não somente a mulheres e homens, e sim às relações entre estes. É uma identidade adquirida, aprendida, que muda ao longo do tempo e varia dentro das culturas e entre elas.

Igualdade: originária do latim arqualitas é a condição, estado ou qualidade de coisas iguais, idênticas, uniformes e equivalentes. É o princípio de que todas as pessoas são iguais perante a lei, possuindo os mesmos direitos e deveres.

Lente de gênero: uma perspectiva ou lente de gênero considera os papeis atribuídos ao gênero, relações e necessidades socioeconômicas. Permite reconhecer que as relações entre mulheres e homens podem variar conforme o contexto.

Mansplaining: tradução do termo em inglês como “explicação masculina”. Comportamento do homem para explicar algo óbvio a uma mulher, como se ela não tivesse capacidade de compreensão.

Manspreading: traduzido como “homens se esparramando”, seja em transporte público, na rua ou em local fechado, se esbarrando ou sentando com as pernas abertas.

Manterrupting: do inglês “interrupção masculina”, que acontece constantemente durante a fala de uma mulher enfraquecendo sua relevância.

Slutshaming: julgamento realizado superficialmente com aversão de mulheres por dispor de sua sexualidade e de seu corpo livremente.

Sororidade: visando romper com o estigma da rivalidade, é a irmandade e solidariedade, uma união poderosa e transformadora entre mulheres fortalecendo a ação coletiva

REFERENCIAL

ARNO, F Instituições armadas, gênero e poder: reflexões para a transformação. Revista Estudos Feministas – Vol.25, no.2. Florianópolis May/Aug. 2017

Maffezzolli, Maickel Robert. PecH, Wesley. Póvoa, Angela Cristiane Santos. Silva, Wesley Vieira da. A Influência do Gênero no Processo Decisório: O Jogo do Ultimato. Revista de Administração Contemporânea –  Vol.21, no.4. Curitiba July/Aug. 2017

Planeta 50-50. Disponível em: http://www.onumulheres.org.br/planeta5050-2030/

Princípios de Empoderamento das Mulheres. Disponível em: http://portuguese.weprinciples.org/

SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade: tradução Laura Teixeira Motta – São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

The Global Gender Gap Report 2016. Disponível em: http://reports.weforum.org/global-gender-gap-report-2016/

Perfil

*Irany Assis é Bacharel em Relações Internacionais pela UNIP, especialista em International Trade Management pelo MIB (Massachusetts Institute of Business), pesquisadora da China e temas relacionados ao desenvolvimento. Foi fundadora e ex-presidente do CIERI-UNIP (Conselho Institucional dos Estudantes de Relações Internacionais) e Co-Fundadora da Suprema – Assessoria de Conhecimento. Atualmente é Diretora de Finanças do Núcleo de São Paulo do CEBRAPAZ (Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz) e Assessora de imprensa.