Prognóstico do Governo Bolsonaro

Faltando menos de um mês para a posse de um dos presidentes mais controversos da história do Brasil, ainda continua sendo uma tarefa árdua realizar um prognóstico do seu futuro governo, sem levantar as paixões partidárias e ideológicas que dividem o país ou sem ofender a seu séquito de seguidores.

Longe dessa questão banal que trata de simplificar o mundo em apenas dois lados, o intuito deste texto é analisar os acontecimentos recentes e seu possível impacto no sistema internacional, assim como a formação da equipe de governo do presidente eleito Jair Bolsonaro e suas repercussões na economia do Brasil.

 Muitas são as questões que geram as escolhas do futuro presidente, assim como o posicionamento de membros do seu governo perante temas considerados polémicos ou interesses divergentes aos seus integrantes. Sendo este o primeiro ponto a ser analisado.

O presidente eleito Jair Bolsonaro deve compreender que ao ser o chefe do executivo, deve governar para a totalidade da população e não somente a parcela que o apoia, da mesma forma deve conciliar os diferentes interesses do país, não sendo sua escala pessoal de valores o parâmetro que utilizado como linha de separação, mas sim aquilo que está estabelecido na constituição. Assim mesmo, seus eleitores devem compreender que ele é um funcionário do povo e não seu patrão, sendo eles mesmos os primeiros que devem questionar suas ações e não aceitar tudo de braços abertos somente pelo fato de que ele seja seu candidato. Essa é a principal diferença entre um presidente democrático e um messias religioso ou ditador.

Embora possa parecer um tema simples, a capacidade de diálogo de um governo é justamente uma das bases que legitima o pacto social e o diálogo político levando o país ao progresso. Saber quando termina o período eleitoral e quando começa de fato atuar como governo é fundamental, sendo necessário haver uma adaptação do discurso à realidade social e demográfica do país.

No caso de Bolsonaro, o que assusta tanto a comunidade internacional como aos opositores é que seu discurso mantem o mesmo tom agressivo usado durante as eleições, motivo que já gerou diversas contradições e mudanças de ultima hora. São justamente essas mudanças de opinião, geradas devido ao discurso passional e por contradições de membros de seu futuro governo, que por sua vez geram um entorno cheio de dúvidas e pouco previsível, o que mantém parceiros históricos do Brasil em alerta e setores da sociedade em grande desconforto.

O mercado interno também reflete essa cautela em relação ao governo de Bolsonaro, embora alguns setores sejam diretamente beneficiados pela formação de sua equipe de governo (tais como o agrobusiness) a indústria nacional por outro lado, teme uma repentina abertura de mercado sem o devido investimento em infraestrutura, o que levaria ao colapso de diversos setores que serão incapazes de competir com empresas estrangeiras que passem a atuar no país, sendo este ponto importante para o próprio bem-estar da população.

A venda indiscriminada de estatais é outro ponto que merece especial atenção, pois a privatização é sem dúvidas uma importante ferramenta de desenvolvimento, porém não todos os recursos e setores são passíveis de privatizar, ao menos não sem causar um forte impacto nos interesses nacionais e até mesmo na estratégia do país, colocando em risco a segurança energética, alimentícia e hídrica da nação. Se o objetivo é levar o país ao desenvolvimento, o controle de alguns setores é fundamental para promover um crescimento homogêneo e equânime e somente depois de alcançar um determinado patamar, avaliar sua privatização. Caso contrário o país e todos seus recursos estarão eternamente a mercê do mercado internacional e do interesse de grande multinacionais ou estatais estrangeiras, não havendo nenhum país na história do planeta que tenha conseguido dessa forma se desenvolver plenamente.

Outro ponto fundamental para analisar o futuro governo de Jair Bolsonaro é a política externa brasileira, já que a mesma é fundamental para manter as bases da economia (instauradas pelo plano Real) sendo a balança comercial uma das colunas do tripé econômico e o IED (investimento estrangeiro direto) uma das principais fontes de recursos financeiros do país.

Também é interessante analisar que o futuro presidente, critica as relações estabelecidas na gestão anterior que se caracterizaram pela diversificação de parceiros econômicos, alegando uma aproximação puramente ideológica, mas consequentemente ignorando as transformações geopolíticas dos últimos 20 anos.

As parcerias do Brasil com os países do Mercosul são essenciais para diversos setores (e começaram já no governo Collor) assim como com os países africanos (que permitiram a internacionalização de grande parte da indústria brasileiras que hoje atuam no exterior) sendo a África um dos continentes que mais cresce no planeta e a ultima região onde existe espaço para a própria expansão do capital, sendo sem duvidas a principal característica do sistema liberal.

Por outro lado a China e demais BRICS não somente refletem uma parceria ideológica, como também estratégia em termos geopolíticos, e por maior que seja a aversão do presidente eleito Jair Bolsonaro ao comunismo, cabe lembrar que a China se autoproclama em sua constituição como um pais comunista e que a mesma é o principal investidor no Brasil.

Um alinhamento com caráter exclusivo embora já tenha ocorrido em outros momentos históricos, poderia resultar em um suicídio econômico não devido ao fato de que seja os Estados Unidos, mas as politicas cada vez mais isolacionistas da gestão Trump.

Por ultimo a saída do Brasil de protocolos como o de Paris ou a não participação da nação em assuntos relevantes como o meio ambiente, reduz drasticamente a ação brasileira no cenário internacional e elimina anos de trabalho nesse sentido e que começaram muito antes nos anos 90.

Sendo assim, o governo do futuro presidente do Brasil possui três desafios fundamentais que nada tem a ver com um posicionamento ideológico, mas com a pura realidade social, econômica e politica do Brasil e do mundo.

Independente do posicionamento ideológico do presidente, o Brasil é um país multiétnico, multicultural e laico, com diversidade de religiões e opiniões, pelo qual é necessário gerar uma convergência entre os diferentes interesses e dialogar com os diferentes setores da sociedade, sem gerar uma polarização (como está acontecendo com os evangélicos) e promover uma conciliação nacional (sem dúvida necessária) o governo deve governar para a totalidade da nação respeitando sua diversidade assim como manda a constituição.

O segundo desafio está relacionado às transformações econômicas que devem ocorrer no país, pois sem dúvidas é necessário implementar mudanças, porém é importante não negligenciar a própria estrutura macroeconômica do Brasil assim como o estágio de evolução dos atores nacionais e sua capacidade competitiva e de transformação. Uma mudança drástica, a exemplo do que ocorreu na vizinha Argentina, pode gerar um colapso produtivo em lugar de uma transformação, sendo vital avaliar o quê precisa ser mudando e o tempo necessário para implementar essa mudança.

O terceiro desafio é um resumo dos pontos anteriores, a forma como o Brasil se apresentará perante a Comunidade Internacional e que sem dúvidas irá afetar não somente o fluxo de investimentos como também a própria atratividade dos recursos que serão apresentados e a entrada de novas empresas e novos atores.  Se dizer um país liberal mas atuar dentro de um espectro conservador pode gerar uma serie de ingerências e isolar o Brasil, levando a uma desvalorização generalizada tanto dos seus produtos como de dos seus recursos.

É impossível prever de momento os resultados da futura gestão de Bolsonaro. Atualmente existem grandes desafios e um determinado encanto (chamado na teoria politica de “efeito ganhador” por uma parte da população e do mercado que são típicos em um ciclo de mudanças no governo, mas que acostumam durar pouco, porém de momento e apesar das dúvidas o horizonte não parece muito promissor, ao menos não no que tange ao cenário internacional e a conciliação nacional.

16508475_1856260734643784_2512335075699457974_nWesley S.T Guerra, Atua como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comércio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latino-americano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura, MBA em Marketing pelo Massachussets Institute Of Business e mestrando em Políticas Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Membro do Smart City Council. Fundador do CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais.

Bibliografía:

O Brasil e o Mundo: a política externa e suas fases. Fagundes, Paulo G.

Como funciona o tripê econômico. Mello, Marcelo.

 

 

Brexit: Por que os britânicos saíram da União Europeia?

No dia 23 de junho de 2016, os britânicos optaram por deixar a União Europeia (UE) após o plebiscito. Em um discurso logo após uma semana do resultado do referendum, o governador do Banco da Inglaterra, Mark Carney, explanou sobre a “mudança de regime” do Reino Unido e a conflagração de uma “incerteza geopolítica” (CARNEY, 2016). Para Bachmann; Sidaway (2016), na onda de incertezas de como ou quando o Brexit vai acontecer, a emersão do despertar dos votos do Brexit remontam a cinco conceito-chaves: populismo, nacionalismo, imperialismo, fragmentação e desigualdades econômicas.

Há várias teorias sobre o porquê os britânicos resolveram sair da UE. De acordo com Clark, Goodwin e Whiteley (2017), essas incluem hostilidade contra imigrantes, desprezo pelos burocratas de Bruxelas, preocupações com a soberania, um sentimento anti-elite, insatisfação daqueles que foram deixados para atrás pela globalização, a longa história de euroceticismo, e a imprensa anti- europeia.

A campanha pela saída da UE, fundada por membros do UK Independence Party (UKIP), se destacou pelo bordão let`s take back control” (retomar o controle). No que se percebe uma sensação de perda de controle atingiu o país. Do ponto de vista de Tomlinson e Dorling (2016), Brexit está ligado ao saudosismo Império Britânico por dois motivos principais: as migrações de trabalhadores pós- Segunda Guerra Mundial de antigas colônias para o Reino Unido, o qual criou termos xenófobos subsequente de discursos sobre “imigração”, e declínio geopolítico da era uma vez um país hegemônico:

As classes mais baixas foram encorajadas a acreditar em sua superioridade econômica, política, social e racial do resto dos sujeitos do império. A subclasse doméstica poderia se tornar imperial sobre a classe e todas as classes britânicas poderiam se unir em uma superioridade patriótica nacional. A força desta solidária ainda está presente no século 21 e vai de algum modo para explicar a xenofobia, racismo e hostilidade que ainda é uma parte tão óbvia da herança britânica [ tradução feita pelo autor] (TOMLINSON & DORLING, 2016).

No que se refere à geografia eleitoral de 51,1% a 48,1%, a vitória do Brexit é pouco elástica, conforme Harry e Charlton (2016), mas os britânicos decidiram se afastar da UE se deve ao fato de que as pessoas simples não sentem as vantagens de estarem em um bloco econômico supranacional. A europeização e Bruxelas passaram  a ser  associadas com  a perda de autonomia-  incitação  de discursos de políticos e tabloides de direita (Mail, Express, e Sun). Essas versões se atribuem a perda de controle pelo poderio americano (as bases navais dos EUA nas ilhas britânicas e a membresia da OTAN- Organização do Tratado do Atlântico Norte, como uma limitação à soberania do país) e a americanização, o qual, supostamente, aumentou a quantidade de imigrantes (BACHMANN & SIDAWAY, 2016, p. 48).

Em contrapartida, segundo Littway (2016), o Brexit surgiu em razão de um apelo populista as mais baixas camadas que se sentem marginalizadas economicamente, socialmente e culturamente pela globalização, iludidos pela desinformação e um descarte aos efeitos potencialmente cataclísmicas dessa decisão.

Nesse sentido, refere-se que a fragmentação não representa algo exclusivo do Reino Unido. A Europa exibe vários exemplos disso, sobretudo os Programas Regionais e de travessias de fronteiras da UE em busca da integração. Como atesta Petrakos et al (2016, p. 699): “EU experience has shown that deeper integration may concise with increasing imbalances in competiveness, trade relations, and development level”. Além disso, a zona do euro não funcionou como esperado e resultou em discrepâncias nos caminhos de desenvolvimentos de vários países (POLLAND & SIDAWAYT, 2002).

Contudo, ainda há o medo existente que o Brexit possa levar a fragmentação do Reino Unido, dada a possibilidade de um novo referendo da Escócia para a independência e um potencial referendum da Irlanda do Norte para a unificação da Irlanda . Notadamente, a Inglaterra votou no Brexit, por 53,4% a 46,6%. País de Gales também votou no exit, com 52,5% a 47,5%. Por outro lado, tanto a Escócia quanto a Irlanda do Norte, juntamente com Londres, votaram para permanecer (BBC, 2017).

Ressalta-se ainda, as “fronteiras fantasmas”, ou seja a separação das fronteiras do Leste e Oeste europeu (Kraft, 2015) na fragmentação da sociedade contemporânea britânica não somente se assentam na divisão de territórios mas também na divisão de classes sociais e legados imperiais que por muito tempo existiu no Reino Unido (NAIRN, 1977).

Com efeito, a União falhou em não criar uma identidade europeia, fato é que o Brexit é um sintoma disso. A visão integracionista da UE não alcançou, ao total, os cidadãos europeus. Protestos depois do referendum mostraram que um número significante de pessoas entendem a Europa como igualmente importante quanto à identidade deles britânica.

41484448_235765263783488_6820077748703199232_nLucas Ribeiro, é Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UNB). Atua como coordenador do International Students for Liberty e como assistente de pesquisa para o Centro de Direito Internacional.

 

REFERÊNCIAS

Bachmann, Veit e Sidaway, James D. (2016). Brexit geopolitics. geoforum, 47-50.

BBC. (2017, April 25). Brexit: All you need to know about the UK leaving the EU. Retrieved from BBC News: http://www.bbc.com/news/uk-politics-32810887. Acesso dia 28/04/2017

Carney, Mark. (2016, June 30). Uncertainly, the economy and Policy. Retrieved from Bank of England: http://www.bankofengland.co.uk/publications/Documents/speeches/2016/speech915.pdf( Acesso dia 26/03/2017)

Clark, Harold; Goodwin, Matthew, e Whiteley, Paul. (2017). Brexit: Why Britain voted to leave the European Union. Cambridge: Cambridge University Press.

Harris, Richard, e CHARLTON, Martin. (2016). Voting out of the European Union: Exploring the geography of Leave. A environment and Planning, pp. 2116-2128.

 

Kraft, Claudia. (2015). Phantomgrenzen und Zeitschichten im Postsozialismus. Ist der Postsozialismus postkolonial. Gottingen: Wallstein.

LITTVAY, Levente. (2016). Compare populist movements. Comment, 487-89.

Nairn, Tom. (1977). The break-up of Britain: crisis and neo nationalism . Edinburgh: Common Ground. PETRAKOS, George ; TSIAPA, Maria e KALLIORAS, Dimitris. (2016). Regional inequalities in the

European Neighborhood Policy countries: The effects of growth and integratio. Environment and Planning C: Government and Policy, 698-716.

POLLAND, Jane. S e SIDAWAYT, James D. (2002). Nostalgia for the Future: The Geoeconomics and Geopolitics of the Euro. Royal Geographical Society (with the Institute of British Geographers, pp. 518–521.

TOMINSON, Sally e DORLING, Danny (2016, May 9). Brexit has its roots in the British Empire – so how do we explain it to the young? Retrieved from NewsStatesman: httpne://www.newstatesman.com/politics/staggers/2016/05/brexit-has-its-roots-british- empire-so-how-do-we-explain-it-young. Acesso em: 28/03/2017

De Império a Império, há tempos

Carlos Frederico Pereira da Silva Gama[i]

 

Há tempos tive um sonho

  Não me lembro, não me lembro

(Legião Urbana, “Há Tempos”)

Após a Grande Exibição de 1851, o Crystal Palace foi derrubado e reconstruído em outra parte de Londres. O prédio de ferro fundido e vidro projetado por Joseph Paxton e Owen Jones havia sido visitado por cerca de 1/5 da população do Reino Unido à época (que incluía a Irlanda) em menos de 1 ano, ajudado pela revolução dos transportes e da indústria que o palácio buscava corporificar[ii].

O surgimento e derrubada do Crystal Palace marcou o apogeu do longo reinado da Rainha Vitória.  Reconstruído de forma vazia, simbolizava o surgimento e o passamento de uma experiência. A maior parte dos objetos exibidos foram vendidos durante o período da exibição, ou foram devolvidos a seus donos. Sua efemeridade foi uma mais potentes metáforas da modernidade do nascente império britânico que se pretendia global, movido a ferro e vidro, onde o sol não se deitava jamais.

A inovadora obra (precursora das parcerias público-privadas) foi reapropriada por seus visitantes. O Crystal Palace se tornou uma atração em si mesma.

Algumas décadas antes, outro grande império, de extensão desconhecida, iniciava a construção do que hoje conhecemos como o Museu Nacional, na cidade do Rio de Janeiro, então uma capital imperial e sede de uma das mais antigas cortes da Europa. Rapidamente uma coleção única de artefatos passou a ter moradia permanente na atual Quinta da Boa Vista – pergaminhos da Torah, múmias egípcias, obras extraordinárias dos povos nativos do Brasil, o mobiliário imperial. Com acervo crescente, o museu sobreviveu ao fim da monarquia, a muitas ditaduras e crises econômicas. O Rio se tornou a capital federal e perdeu seu status, mas o Museu Nacional persistiu na sua singularidade.

Em 1936 – ano de uma crise econômica global – o Crystal Palace pegou fogo. Restaram maquetes, imagens, relatos, fotos, pinturas, reminiscências, referências arquitetônicas, literárias, musicais.

O passado não é um lugar inerte, sem vitalidade. Permanece vital, reapropriado pelos pósteros. Não se resume a uma nostalgia gloriosa.

Nas palavras de Barbara Misztal[iii], quem está invocando qual versão do passado – e para que?

O que há de ser preservado – por que, para que, por quem, para quem?

O que merece fazer parte do futuro de muitos, senão de todos?

Tais questões não findaram nas chamas: permanecem em aberto. Delas a democracia não se separa.

Diante da visão das ruínas do Museu Nacional, o Brasil contempla esses dilemas em 2018.

Em meio a acusações privadas e públicas, no fogo das eleições, o país do futuro se remove em cinzas.

Todas os tons do espectro político apontam a responsabilidade e o dedo para o outro lado, e temos a sensação palpável de que um bem coletivo[iv] foi arrebatado do seio da nação. As feridas são sentidas em escala municipal, estadual, federal – até mesmo mundial[v].

Será que a sociedade civil brasileira conseguiu se reapropriar de tudo aquilo que a Família Real e seus sucessores depositaram na Quinta da Boa Vista?

Em meio à vertigem das perdas, 200 anos parecem ter sido insuficientes.

Qual o Angelus Novus de Paul Klee[vi], não podemos fazer retroceder o relógio, reunir escombros, reerguer o que deixamos perecer. Reconstruções são parciais. São atos políticos: mudam os rumos.

Ao manter uma distância respeitosa da própria história, não sabemos o que dizer a respeito.

Subitamente, o Crystal Palace parece estar bem mais em pé do que nosso quase bicentenário palácio recém-acalentado pelas chamas em outro período de crise econômica num mundo globalizado.

Enquanto a comoção pública se resumir às dependências do museu, perdemos a chance de repensar a nação. Nossas escolhas se atrofiam, o futuro se embaça numa cortina de fumaça.

Lidar com a finitude, as contingências, fracassos e frustrações é uma tarefa inescapável da liberdade. A criatividade humana encontra sua luz nos desafios que pavimentam o nosso caminhar.

Agora, como sempre, recomeça a luta pelo futuro, para definir quem e porque terá dignidade para fazer parte do que restará desse museu. Quem vai ter o que dizer dependerá de nossas escolhas.

Nosso tempo precisa de um update.

Referências

Barbara Misztal (2003). Theories of Social Remembering. Berkshire, Open University Press.

David Carradine (2017). Victorious Century. New York, Viking.

Mancur Olson (1965). The Logic of Collective Action. Harvard, Harvard University Press.

Walter Benjamin (1940). “Theses on the Philosophy of History”. Disponível em: https://www.sfu.ca/~andrewf/CONCEPT2.html. Acesso em: 03 de Setembro de 2018.

 

colaborador

[i] Professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Tocantins (UFT)

[ii] David Carradine (2017). Victorious Century. New York, Viking: p. 282

[iii] Barbara Misztal (2003). Theories of Social Remembering. Berkshire, Open University Press.

[iv] Mancur Olson (1965). The Logic of Collective Action. Harvard, Harvard University Press.

[v] http://www.lefigaro.fr/culture/2018/09/04/03004-20180904ARTFIG00096-solidarite-de-la-france-apres-l-incendie-du-musee-national-de-rio-de-janeiro.php

[vi] Walter Benjamin (1940). “Theses on the Philosophy of History”. Disponível em: https://www.sfu.ca/~andrewf/CONCEPT2.html. Acesso em: 03 de Setembro de 2018.

Inovação, Smarcity e governo: a solução para a crise política no Brasil

Vivemos em uma época de intensas transformações e mudanças, onde a informação e a realidade ganharam novas dimensões e as redes sociais e mídias digitais, passaram a integrar o nosso dia a dia ao ponto de extravasar o limite entre o público e o privado, o real e o falso, o certo e o errado…

Em meio a essa transformação, existe também uma polarização que dilacera a sociedade, em meio do advento de uma nova revolução industrial, a famosa Industria 4.0… E tudo isso em época de eleições…

Mas em que Brasil devemos apostar? Quais são as propostas que devemos apoiar, a gestão e o modelo a ser implementado?

Basta dar uma volta em nossa história ou visitar alguns países vizinhos como Venezuela e Argentina, para ver que os velhos modelos aplicados em países latinos estão ultrapassados. Independentemente de sua posição, em um lado u outro da balança, o certo é que as nações emergentes devem inovar seus projetos de desenvolvimento e não emular velhas formulas, que quando aplicadas nas nações mais ricas, o fizeram em um contexto produtivo, econômico, social e histórico completamente diferente, de modo que reproduzir velhos modelos não trará novos resultados…. é preciso inovar!

A Inovação sempre é vista como algo relacionado com a alta tecnologia, porém nada mais é que repensar um processo, ou seja, podemos inovar não somente em termos produtivos, mas também o funcionamento de dinâmicas sociais, políticas e econômicas… Fazer diferente de verdade!

Nesse contexto de inovação entram as cidades inteligentes. Espaços nos quais as dinâmicas e processos inerentes do espaço urbano geram suas próprias respostas… um ecossistema cooperativo e colaborativo que respeita as diferencias e promove a inclusão… Em uma cidade inteligente o governo é somente um agente induzido pelas próprias dinâmicas da urbe, não sendo o único e exclusivo indutor, mas um colaborador de um ecossistema inteligente… Ou seja, já não é um modelo partidário, filosófico e político o que guia as autoridades, mas a própria consciência da suas cidades, suas demandas e dinâmicas harmonizadas… A cidade se transforma em um ente inteligente…

Talvez seja essa a inovação que necessita o Brasil e a sociedade brasileira. Não repetir modelos políticos que se mostram falhos e que são até mesmo questionados em países desenvolvidos, não aceitar promessas vazias ou discursos antigos renovados… Assim como é preciso repensar nossas cidades, nossa produção… também devemos repensar nosso governo e nosso projeto de desenvolvimento da nação… o que reitero… não se faz repetindo fórmulas antigas… mas… inovando…

Na atual conjuntura, devemos buscar formulas de harmonizar os interesses da população e ao mesmo tempo refletir as mudanças internacionais, tais como a movimentação do eixo Atlântico para o Pacifico e  processos globais como a industria 4.0. Replicar modelos que estão sendo questionados ou sofrendo mudanças não é uma fórmula eficiente de introduzir o Brasil no futuro, mas uma forma certa de condenar o país ao passado… É preciso analisar eventos como as transformações da economia americana e o protecionismo tão amplamente apoiado por sua população assim como e os constantes ataques ao livre mercado da suposta nação mais liberal do planeta… Por outro lado é preciso avaliar a expansão do capital chinês no mundo e a crescente re-estatização de empresas no Reino Unido… ou seja, os próprios países que representam modelos evoluídos refletem esse estado de anomia que existe no mundo… Onde capitalismo, socialdemocracia, comunismo, se confunde com a própria expansão e contração do capital que trata de se readaptar as novas dinâmicas do cenário global e das novas tecnologias…  O custo de não inovar… será novamente se posicionar na periferia global como meros exportadores de matéria prima incapazes de planejar sua ascensão nem de se beneficiar de seu posicionamento global e potencialidades…

Uma eterna Casa Grande, onde uma pequena camada integra a realidade global, e uma grande senzala se disfarça de democracia vendo seus amos trocar de cadeira cada quatro anos…

 

16508475_1856260734643784_2512335075699457974_nWesley S.T Guerra, Atua como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comércio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latino-americano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura, MBA em Marketing pelo Massachussets Institute Of Business e mestrando em Políticas Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Membro do Smart City Council. Fundador do CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais.

Bibliografia:

Latin America in the 21st Century: Toward a New Sociopolitical Matrix – Manuel Antonio Garreton. 2008

Inovação no Setor Público: teoria, tendências e casos no Brasil – Organizadores: Pedro Cavalcante, Marizaura Camões, Bruno Cunha e Willber Severo / Brasília, 2017

As raízes da desigualdade de gênero na África do Sul

Com o advento do mês de agosto em que se celebra o mês da mulher na África do Sul, este artigo faz uma análise das causas da desigualdade de gênero neste país.

A população da África do Sul é formada por cerca de 57,7 milhões de pessoas de diversas origens, culturas, idiomas e religiões.1 O país possui 11 idiomas oficiais  (zulú 22.7%, xhosa 16%, afrikaans 13.5%, Inglês 9.6%, Sepedi 9.1%, Setswana 8%, Sesotho 7.6%, tsonga 4.5%, siswati 2.5%, venda 2.4% e ndebele 2.1%.2 A composição étnica do povo sul-africano é caracterizada pela pouca miscigenação mas grande diversidade entre os grupos. Os negros representam a maior parte da população e formam um grupo culturalmente e linguisticamente bem diverso. Os negros representam 80,9%, seguido por mestiços 8,8%, brancos 7,8% e indianos e asiáticos 2,5%.

Como se pode observar, a sociedade sul-africana é bastante complexa por se tratar de um país multicultural e heterogêneo. Ainda hoje essas organizações sociais tradicionais jogam um papel importante na estrutura de poder político, econômico e social. Elas são dominadas pelos homens ou seja são convencionalmente patriarcais. Nesse contexto a mulher negra sofre com a tripla discriminação: por raça, classe e gênero.

Além do sistema patriarcal, o apartheid também impôs restrições às mulheres africanas a partir dos anos 1950. Muitas mulheres viviam em condições precárias nas áreas rurais outras deixavam sua própria família para trabalhar de doméstica em outras regiões onde se situavam os bairros dos brancos. Em 9 de agosto de 1956, quase 20.000 mulheres sul-africanas de todas as raças marcharam na capital Pretória para confrontar as leis recentemente aprovadas que limitavam sua participação na sociedade. É difícil definir as questões específicas que as mulheres sul-africanas enfrentavam em 1956 ou enfrentam hoje. Questões que preocupavam as mulheres na década de 1950 podem ser descritas como questões “pão e manteiga” (‘bread and butter’ matters), como habitação, preços de alimentos e igualdade. Na África do Sul atual, as mulheres enfrentam uma ampla gama de questões, como violência doméstica, abuso infantil, HIV / AIDS, discriminação de gênero, bem como a pobreza. Atualmente, as mulheres ainda permanecem economicamente dependentes dos homens. Na África do Sul, 40% dos lares são considerados pobres e esta taxa de pobreza existe principalmente porque as mulheres não fazem parte da força de trabalho.

De acordo com o Fórum Econômico Mundial, a África do Sul ocupa o 19º lugar entre 144 países em termos de igualdade de gênero.3 Quando o mundo celebra o dia da mulher, este país celebra o mês da mulher. Em teoria, a África do Sul tem excelentes leis e normas para promover a igualdade de gênero e se opor à opressão e a todas as formas de violência contra as mulheres. A Constituição sul-africana proíbe qualquer forma de discriminação. A Comissão para a Igualdade de Gênero afirma que “se deve promover o respeito à igualdade de gênero e a proteção, desenvolvimento e alcance da igualdade de gênero”. Além disso, há também um Ministério da Mulher, porém na realidade ainda é preciso fazer muito.

O número de mulheres ocupando cargos políticos vem aumentando desde sua democratização. Após as eleições gerais de 2014, as mulheres ocuparam 46% dos cargos de vice-ministro e 41% dos cargos parlamentares. Assim como a presença de mulheres no mercado de trabalho tem crescido, a violência contra a mulher também mostra dados bastante elevados. Entre 25% e 40% das mulheres sul-africanas sofreram violência sexual e / ou física. Pouco menos de 50% das mulheres relatam ter sofrido abuso emocional ou econômico nas mãos de seus parceiros durante sua vida e entre 28% e 37% dos homens adultos relatam ter violentado uma mulher.4

Van Niekerk, Tonsing, Seedat, Jacobs, Ratele & McClure (2015:1) argumentam que “na África do Sul, a violência é marcada por múltiplos fatores sociais, incluindo pobreza generalizada e racializada, desemprego persistente e renda desigual; noções patriarcais de masculinidade que celebram a tenacidade e a assunção de riscos; extensa exposição a abuso na infância; acesso a armas de fogo; uso excessivo de álcool; e fraquezas na aplicação da lei”.5 Portanto, a violência contra a mulher além de tipificar uma violação dos direitos humanos é também a causa e consequência da desigualdade de gênero.

Montserrat Lleyda

 

Montserrat Lleyda Linley é graduada em Relações Internacionais pela Univesidade Autónoma de Barcelona,  mestre em Comércio Exterior pela Universidade Pompeu Fabra de Barcelona e Mestre em Relações Internacionais pela University of Cape Town.

 

Bibliografia

1 Statistics South Africa. Mid-year population estimates, 2018. South African Government. Disponível em:

<http://www.statssa.gov.za/publications/P0302/P03022018.pdf&gt;. Acesso em: 24 de julho de 2018.

2 Media Club South Africa. The languages of South Africa. Brand South Africa. Disponível em: <http://mediaclub.co.za/landstatic/80-languages>. Acesso em: 24 de julho de 2018.

3 The Global Gender Gap Report 2017. World Economic Forum. Disponível em:

<http://www3.weforum.org/docs/WEF_GGGR_2017.pdf>. Acesso em: 24 de julho de 2018.

4 Gender-based violence in South Africa. Saferspaces. Disponível em: <https://www.saferspaces.org.za/understand/entry/gender-based-violence-in-south-africa&gt;. Acesso em: 25 de julho de 2018.

5 Van Niekerk, et al. The invisibility of men in South African violence prevention policy: national prioritization, male vulnerability, and framing prevention. 8, 10.3402/gha.v8.27649. Global Health Action, 2015.

Ano Europeu do Patrimônio Cultural

  1. O objetivo do Ano Europeu do Patrimônio Cultural (2018) é sensibilizar para a história e os valores europeus e reforçar o sentimento da identidade europeia. Mas, mais do que isso, é considerar esses valores e essa identidade como realidades abertas a outras realidades – sabendo-se os desafios que o património cultural enfrenta e que têm impacto, desde a transição para a era digital até à pressão ambiental e física, sem esquecer a prevenção e o combate do tráfico ilícito de bens culturais. Daí a necessidade de promover a diversidade cultural, o diálogo entre culturas e a coesão social, de realçar o contributo económico do património cultural para os setores criativos e para o desenvolvimento e de salientar o papel do património cultural nas relações internacionais, desde a prevenção de conflitos à recuperação de património destruído.
  2. Não falamos de coisas do passado, irremediavelmente perdidas num canto recôndito da nossa memória. Referimo-nos à memória viva, seja ela referida a monumentos, sítios e tradições, seja constituída por acervos de museus, bibliotecas e arquivos. Mas fundamentalmente tratamos de conhecimentos ou de expressões da criatividade humana… Ter memória é, assim, respeitarmo-nos. Cuidar do que recebemos é dar atenção, é não deixar ao abandono. Por isso, o património cultural que devemos proteger é sinal para que o que tem valor hoje e sempre não seja deixado ao desbarato. Como poderemos preservar o que é novo se não cuidarmos do que é de sempre?

Por ocasião desta celebração apresentamos a proposta mencionada na conferência da IADIS- Associação Internacional para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (2002):

O Forum Identidade e Herança Cultural

Objectivos:

Compreender a diversidade cultural e as diferentes identidades para alcançar a união através do conhecimento mútuo.

Informação em várias línguas.

Estudos comparativo de religiões, sistemas políticos, instituições e herança cultural.

Identificar os elementos que caracterizam e distinguem as diferentes comunidades, preservação de específicidades e criação de auto-estima combatendo a homogeneização da sociedade.

Promoção de intercâmbio de pessoas, conhecimento e actividades comerciais.

Forum:

https://groups.google.com/forum/#!forum/cidentity

 

ceres

Lisa Henriques
Nasceu em Lisboa, 22 de Dezembro 1981
Pós graduação em Estudos Europeus, Universidade Católica, Lisboa
Publicou Aufgang Luz Nebulosa
Comunicação Portugal Hypercluster do Mar e Política Marítima Europeia, Instituto de Defesa Nacional

Redes sociais, a ascensão de um 5º poder

Após a queda do antigo regime o poder, até então centralizado no monarca, passou a ser divido em três áreas: o poder executivo, o legislativo e o poder judicial. Se adaptando a diferentes composições e organismos conforme a estrutura de cada estado e as próprias condições decorrentes do pacto social e de outras dimensões tais como a esfera cultural, a religiosa, etc.

Apesar de não haver um modelo de Estado padrão dentro do panorama internacional, existe um amplo consenso sobre a necessidade de separação desses poderes, cujo objetivo básico é viabilizar a democracia, consolidar o governo e o estado de direto. Sem embargo, na prática essa separação pode ser questionada conforme a perspectiva do observador, não sendo a democracia do Reino de Marrocos, a mesma que a de um país latino como o México, o de uma nação tradicional como a Índia ou uma economia desenvolvida como o Canadá.

Ainda assim, apesar das características que cada país possa apresentar, existe uma certa harmonia e um fluxo que direciona e divide o poder, desde sua formulação dada pelos diferentes grupos de interesses à sua aplicação pelos órgãos executivos.

A mídia surgiu como uma ferramenta capaz de fomentar mudanças no ciclo do poder e até mesmo de alterar determinados movimentos dos grupos de interesse elevando novas figuras formuladoras de opinião.

Porém com a evolução da mídia, a mesma se transformou em um ente com suas próprias pretensões, deixando de ser uma ferramenta para se transformar em um novo poder não constituído de forma oficial, mas presente em todos os sistemas de governo, o 4º poder.

Nas últimas décadas vimos o surgimento de uma nova ferramenta.

As redes sociais foram criadas com o intuito de unir as pessoas, gerar redes de contato ao redor do mundo e ampliar a interação social. Parte dos vínculos afetivos passaram a integrar uma nova realidade virtual eliminando as distâncias, gerando novas pontes e uma nova consciência para a sociedade cada vez mais globalizada.

Mas assim como a mídia tradicional, as redes sociais foram evoluindo. As empresas passaram a integrar esse espaço virtual e a ofertar seus produtos, as organizações se fizeram presentes e com elas suas ideias, a privacidade se transformou em moeda de cambio havendo uma linha muito tênue entre exposição voluntária e exposição explícita.

Tecnologias como o Big Data e a Internet of things (Internet das coisas) ampliaram o mundo virtual a uma escala jamais vista, eliminado praticamente a barreira entre vida particular e a pública.

A rede sabe quem você é através das redes sociais, sabe seus padrões de compras, suas pesquisas para as próximas férias, suas fotos compartilhadas somente com amigos, sua conta bancária, seus status laboral, sua formação, sua religião, seus fetiches, sua forma de ver e pensar…  E da mesma forma que ela expõe isso ao mundo aos poucos começa a ser utilizada como a forma mais avançada de manipulação que jamais existiu… Uma sociedade tal qual mencionava Guy Debord com a ampliação do conceito de fetichismo de Marx.

A diferença da propaganda tão utilizada por nazistas, comunistas e capitalistas. As mídias sociais promovem a possibilidade de produzir material específico para cada público, faixa etária, renda e localização geográfica. O algoritmo usado pelas principais redes sociais, promove uma continua exposição de um conteúdo específico que pode ser facilmente manipulado.

Essa manipulação crescente nas redes sociais, são frutos não somente da exposição de informações, mas também da falta de uma legislação clara ou regras específicas. E a mesma rede social que permite que grupos extremistas façam a captação de jovens na Europa é aquela que censura a foto de uma estátua de uma vênus paleolítica ou de um pai dando banho em seu bebe.

O uso das redes sociais como ferramenta de manipulação, ganhou maior relevância com o escândalo envolvendo a maior empresa do setor, que forneceu mais de 80 milhões de dados dos seus usuários e que permitiu o uso da mesma para influenciar tanto as eleições americanas como o referendum britânico.  O incremento das notícias falsas também é uma crescente preocupação na Europa e na América Latina.

Mas as redes sociais, embora cada vez mais evoluídas, não apresentam o âmago de ser independente e representar seus próprios interesses como ocorreu com a mídia tradicional, mas bem tudo pelo contrário, o estado de anomia existente nas redes sociais é o que lhe fornece força e a constituí como um 5º poder.

A incapacidade de controlar a informação ou moldar o fluxo da mesma, além da sensação de liberdade que oferece as mídias sociais, possibilitou não somente seu uso para manipular, mas também a capacidade de gerar novos formuladores de opinião, alguns deles descartáveis outros simplesmente automatizados para ir guiando o povo conforme suas pretensões, sendo muito poucos aqueles capazes de perceber essa influência, já que a mesma se dá por aproximação, por aquilo que o usuário gosta, por sua forma de pensar e não por oposição, motivo que também explica a crescente polarização da sociedade em relação a todo tipo de temas, esquerda versus direita, ateus versus religiosos, veganos versus carnívoros, etc.

Filósofos como Umberto Eco e Noam Chomsky já haviam se posicionados contrários e cautelosos perante as mídias sociais, recentemente diretivos relacionados as principais redes também alertaram a população. Mas eis a evolução da mídia social… ela já não é um espaço de interação social usado para se conectar com um amigo…ela é um campo de guerra psicossocial digitalizado, um mundo virtual, capaz de ecoar nos demais poderes, ao tempo que estes, também a utilizam para se perpetuar em seus pedestais.

Talvez o maior paradoxo que envolve as redes sociais é que elas já não fomentam o diálogo, mas sim… o confronto.

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Wesley S.T Guerra, Atua como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comércio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latino-americano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura, MBA em Marketing pelo Massachussets Institute Of Business e mestrando em Políticas Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Fundador do CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais.

Bibliografia

ECO, Umberto. Pape Satàn Alepp, crônicas de uma sociedade líquida.

DEBORD, Guy. A sociedade do Espetáculo.

CHOMSKY, Noan. Contra o Império da vigilância.

Venezuela: Um recorte da conjuntura atual e o papel dos EUA na crise

A profunda crise político-institucional vivida há 5 anos na Venezuela tem origens históricas datadas do final do século XX e início dos anos 2000.

Neste panorama político instável ascendeu em 1998 Hugo Chavéz, como resultante de um processo de decomposição das estruturas políticas tradicionais dominada pelo bipartidarismo de base social-cristã e social-democrata, partidos responsáveis por conduzir o país a um período de estabilidade institucional distinto das maiorias dos regimes ditatoriais que compunham a cena latino-americana nas décadas de 60 e 70.

Todavia, com o cenário econômico dos anos 80 mudando para um quadro de crise da dívida e baixa nos preços internacionais do petróleo em 1983, os efeitos ao país prejudicaram a estabilidade institucional.

Nesse novo panorama, no 2º mandato do presidente Carlos Andrés Perez (1989-1993) a tomada de empréstimos junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI) exigiu como contrapartida reformas estruturais que geraram corte nos gastos sociais, aumento no preço da gasolina e dos serviços públicos, forçando a população a promover forte oposição, movimento que ficou conhecido como “Caracazo”.

Esse movimento popular teve como resultante o surgimento de uma nova etapa na política venezuelana, ao receber um forte enfoque social invertendo as prioridades do Estado, com redistribuição das receitas do petróleo para projetos de benefício massivo, dentre os quais: “Misión Barrio Adentro”, projeto de saúde pública estruturado em redes de postos de atendimentos instalados nas áreas mais pobres, projetos para erradicação do analfabetismo em todos os níveis via rede pública de ensino e políticas para diminuição do déficit populacional através de moradias acessíveis para a parcela mais pobre da população.

Há, contudo um grande interesse internacional pela Venezuela, inicialmente pela ampla reserva petrolífera em seu território o que leva a uma reflexão feita por uma parcela de analistas internacionais que apontam para um cenário de intervenção externa, seja por meio de guerras econômicas e comerciais, seja por ingerências políticas.

Nesse recorte geopolítico, o histórico de intervenções externas diretas, ou indiretas produziu desdobramentos com inúmeras variáveis, principalmente na esfera humanitária, que pela corrosão do Estado e, por conseguinte do tecido social, promoveu a ruptura com o desenvolvimento, casos de Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria, para citar os mais recentes.

Dentro dessa ótica, o país sul-americano já testemunhou a saída de aproximadamente 700 mil pessoas, de acordo com relatório da Agência das Nações Unidas para Refugiados (UNHCR) que aponta Curação, Aruba, Brasil, Trinidad e Tobago e Colômbia como os principais destinos dos refugiados.

Os Estados Unidos, nessa equação, utilizando do recorte da atual administração de Donald J. Trump, não coloca como centro de relevância para sua política externa o continente americano, sinais claros que foram confirmados pelo pacote de medidas anunciadas logo no primeiro ano de mandato do presidente estadunidense, que consistiu na saída da Parceria Transpacífica onde figuram Canadá, Chile, México e Peru, como representantes das américas, o desejo de renegociar o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), o afastamento do Acordo Climático de Paris apoiado amplamente por nações latino-americanas e o fim do programa diplomático de reaproximação com Cuba.

Entretanto Caracas é vista com cautela por Washington, mesmo sem ser prioridade para a Casa Branca há críticas pela condução política, bem como aos abusos dos direitos humanos o que já configurou busca por apoio em países vizinhos com o intuito de ampliar as sanções econômicas já impostas.

Com o apoio a novas sanções, o papel dos Estados Unidos viabiliza interferir na condição econômica e nos movimentos da administração de Nicolás Maduro, o que acaba por produzir efeito inverso, com maior controle governamental que consequentemente incita a agitações sociais inviabilizando a busca por estabilidade do país.

Entre as opções analisadas pela administração Trump, a série de sanções relacionadas à energia podem incluir restrição das exportações de petróleo leve e gasolina, proibição da venda de equipamentos relacionados ao petróleo à Venezuela, impedindo a importação de óleo bruto, responsável por significativa parcela de receitas operacionais e proibindo o uso de dólares para pagar as transações de petróleo.

No curto prazo, a perda no fornecimento de petróleo venezuelano para os Estados Unidos seria difícil de substituir, poderiam usar da Reserva Estratégica conjuntamente com a implementação de sanções de importação para evitar volatilidade dos preços, ou recorrer ao mercado global de qualidade compatível, canadense, mexicano, ou do Oriente Médio, o que exigiria em contrapartida prazos de envio mais longos e custos maiores.

Em uma conjuntura unilateral, a tomada de sanções por Washington a Caracas poderia ainda aumentar as chances de inadimplência da Venezuela em paralelo ao redirecionamento das exportações de óleo bruto a outros centros, como a Ásia o que afetaria empresas americanas com obrigações contratuais na Venezuela.

Por fim, a ingerência estadunidense poderá surtir efeito contrário ao desejado, ou seja, a imposição de sanções unilaterais possivelmente trará consequências políticas e geopolíticas, embora tal ação destina-se a atacar o regime de Maduro, há a oportunidade de enraizar o governo, com um inimigo externo para culpar pelas devastações econômicas e sociais, assim como prejudicar o alinhamento ocidental sobre o uso de sanções e enfraquecer a utilidade das medidas como ferramenta política de longo prazo.

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Victor José Portella Checchia. Bacharel em Relações Internacionais (2009) pela Faculdades de Campinas (FACAMP), Especialista em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito (EPD). Atuou em duas grandes multinacionais do setor de tecnologia e na área de Cooperação Internacional na Prefeitura Municipal de Campinas com captação de recursos externos, desenvolvimento de projetos na área econômica e comercial e buscando oportunidades de negócios para o município. Atualmente é analista de customer and demand plan para países da América do Sul, Central e Caribe.

Bibliografia

Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto. “Dependência e desenvolvimento na América Latina”. 8º ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.

Paulo Fagundes Vizentini. “A Venezuela de Chávez contra a corrente”.

 Wilson Cano. “Soberania e Política Econômica na América Latina”. Editora Unesp.

As Contradições da Democracia Liberal nas Eleições da Itália

Carlos Frederico Pereira da Silva Gama[i]

As contradições da globalização se chovaram novamente nas urnas da Europa. Como na França, a “nova política” da tecnologia e empreendedores derrotou partidos tradicionais[ii]. Como na Alemanha, nenhum partido conquistou a confiança da maioria dos eleitores[iii]. Como no Reino Unido, a União Europeia saiu das urnas com um expressivo revés[iv]. Como na Áustria, a extrema-direita e partidos de orientação fascista têm chances reais de ocupar postos no futuro governo de coalizão[v].

A Itália se mostrou a soma desigual de tendências de um mundo parcialmente globalizado em crise[vi].

O Movimento 5 Estrelas – crítico tanto da “corrupção sistêmica” da democracia implantada em 1945 quanto da unificação europeia consagrada no Tratado de Roma (1957) – obteve um terço dos votos. O partido mais votado da Bota debutará nos cargos diretivos. Numa performance que pôs um fim a seu mandato, o Primeiro-Ministro Matteo Renzi obteve menos de 1/5 dos votos, empatado com os separatistas da Lega Nord. Precursor do populismo milionário televisivo, o ex-Primeiro Ministro Silvio Berlusconi se contentou com modestos 14%. A esquerda italiana obteve uma de suas menores votações. Será praticamente invisível no novo Parlamento, o 66º que a Itália conhecerá em 73 anos[vii].

Em 2017, o país acolheu 30% menos refugiados, oriundos principalmente da Líbia e da Síria. A Itália participou do esforço militar europeu que levou à deposição e execução de Muammar Kadafi (2011) e, como os parceiros da integração europeia, sofre efeitos da guerra civil internacionalizada na Síria.

Ao contrário da Alemanha de Angela Merkel, que abriu portas e instaurou políticas de acolhimento a mais de 1 milhão de refugiados sírios como uma possibilidade de realento econômico na Europa pós-2008[viii], a Itália de Renzi manteve em curso as linhas da austeridade. Apesar do país manter taxas de crescimento acima de 1% ao longo do ano de 2017, os refugiados apareceram na campanha eleitoral como obstáculo à retomada do crescimento econômico. A escala dos que chegaram à Itália por terra e mar caiu de 180 mil pessoas para 119 mil pessoas, enquanto França, Suíça e Áustria dificultavam a chegava de novos solicitantes de refúgio em seus territórios[ix]. O Produto Interno Bruto permanece inferior ao de 2014 e a taxa de desemprego aumentou 60% após a crise de 2008[x].

Entre os extremos dos movimentos “não-políticos” e “anti-sistêmicos”, um dos berços da Europa se debruça sobre problemas comuns às democracias liberais, cuja crise é parte integrante do processo de reconstrução da ordem internacional após as duas guerras mundiais (1914-1945). Por um lado, relações de interdependência, normas multilaterais e as instituições internacionais criadas para assegurar relações e normas se acumularam[xi], num processo de aprendizado através das fronteiras. A União Europeia é um dos resultado ambiciosos desse processo de transformação na “organização internacional” (termo utilizado por David Mitrany[xii] durante a Segunda Guerra Mundial).

O sucesso dessas construções, porém, ocultou algumas consequências não-esperadas do processo de globalização que se aprofundou ao longo da Guerra Fria (1945-1989) – tais como o aumento da complexidade, a dificuldade para tomar decisões, a contestação crescente das instituições e normas em sua representatividade e eficiência. O término pacífico da Guerra Fria[xiii] e o fim prematuro da União Soviética motivaram previsões otimistas sobre o futuro, três décadas atrás[xiv]. Entretanto, a essas dificuldades veio se somar uma desilusão eleitoral amplamente compartilhada, marcada por acusações de corrupção e distanciamento progressivo entre sistemas políticos e sociedades civis. Paradoxalmente, esse quadro se estabeleceu após o aumento consistente da participação política na segunda metade do século 20. A persistência desses problemas de ação coletiva num mundo no qual somos levados a pensar globalmente e agir localmente foi agudizada pela crise econômica de 2008, a mais drástica desde o “crash” de 1929 que prenunciou uma nova guerra mundial.

Após se erguerem triunfantes sobre as dinâmicas da Guerra Fria, as democracias liberais se viram na situação desconfortável de reféns entre dois extremos. Por um lado, o desmantelamento dos mecanismos de ação estatal desenvolvidos no século XX foi feito em nome de um liberalismo radical, postulando a obsolescência do estado. O surpreendente cenário de estados dos bem-estar social em autodesconstrução foi complementado pelas crescentes tentações da autarquia, que impulsionaram populismos e autoritarismos, a prometer um mundo ceteris paribus[xv], onde variáveis globais podem ser convenientemente limadas dos sonhos de grandeza e prosperidade entre muros.

A análise dos resultados eleitorais na Itália chama atenção para a necessidade de fazer análises comparativas das democracias liberais – tanto na Europa quanto no outro lado do Oceano Atlântico. A contribuição de experiências compartilhadas pode ser decisiva para o futuro da democracia liberal num mundo que demanda sua reconfiguração, à luz dos desafios que dificultam a ação coletiva.

colaboradorCarlos Frederico Pereira da Silva Gama
Diretor de Assuntos Internacionais na Universidade Federal do Tocantins (2016-)
Doutor em Relações Internacionais pelo IRI/PUC-Rio (2011).
Mestre em Relações Internacionais pelo IRI/PUC-Rio (2005).
Bacharel em Relações Internacionais pela PUC-Minas (2002).
Professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do Tocantins (2015-)
Professor de Relações Internacionais no IRI/PUC-Rio (2008-2015)
 Vice Coordenador de Graduação (2012-2014)
 Vice Coordenador do BRICS Policy Center (2010-2011)
 Consultor Especial do BRICS Policy Center (2011-2012)
 Coordenador do núcleo de pesquisa Country Desks no BRICS Policy Center
(2014-2015)
 Editor da revista Cadernos de Relações Internacionais (2014-2015)
 Pesquisador associado do BRICS Policy Center (2015-)

[i] Diretor de Assuntos Internacionais e Professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do Tocantins (UFT)

[ii] Gama, Carlos Frederico Pereira da Silva (2017). “A Eleição Presidencial na França e a União Europeia em crise”. NEMRI. Disponível em: https://nemrisp.wordpress.com/2017/04/27/a-eleicao-presidencial-na-franca-e-a-uniao-europeia-em-crise/ . Acesso em: 27 de Abril de 2017.

[iii] Gama, Carlos Frederico Pereira da Silva (2017). “Unificação entre Contradições: Alemanha, Europa e as crises da globalização”. MUNDORAMA. Disponível em: https://www.mundorama.net/?p=24088 . Acesso em: 11 de Outubro de 2017.

[iv] Gama, Carlos Frederico Pereira da Silva (2015). “As eleições no Reino Unido e seus impactos nas relações econômicas internacionais”. Conjuntura Internacional, v.12, n.1, pp.7-10.

[v] Gama, Carlos Frederico Pereira da Silva (2017). “Desintegração de esperanças: a União Europeia em meio à crise das democracias liberais”. SRZD. Disponível em: http://www.srzd.com/geral/uniao-europeia-crise-democracias-liberais/ . Acesso em: 26 de Dezembro de 2017.

[vi] Gama, Carlos Frederico Pereira da Silva (2017). “Vitórias Inconclusivas: O Desgaste da Democracia Liberal”. NEMRI. Disponível em: https://nemrisp.wordpress.com/2017/07/25/vitorias-inconclusivas-o-desgaste-da-democracia-liberal/. Acesso em: 25 de Julho de 2017.

[vii] Mackay, Jamie (2018). “The Italian Elections Were a Victory for Trumpism”. Dissent Magazine. Disponível em: https://www.dissentmagazine.org/blog/italy-elections-victory-trumpism-league-five-star-movement-bannon . Acesso em: 05 de Março de 2018.

[viii] Gama, Carlos Frederico Pereira da Silva (2017). “Desintegração de esperanças: a União Europeia em meio à crise das democracias liberais”

[ix] Agence France-Presse (2017). “Italy’s migrant crisis saw a huge turning point in 2017”. PRI. Disponível em: https://www.pri.org/stories/2017-12-30/italys-migrant-crisis-saw-huge-turning-point-2017. Acesso em: 30 de Dezembro de 2017.

[x] Trading Economics. “Italy”. Disponível em: https://tradingeconomics.com/italy. Acesso em: 05 de Março de 2018.

[xi] Ruggie, John Gerard (1992). “Multilateralism: the Anatomy of an Institution”. International Organization, Vol.46, No.3, pp. 561-598.

[xii] Mitrany, David (1943). A Working Peace System: An Argument for the Functional Development of International Organization. Londres, The Royal Institute of International Affairs.

[xiii] Gaddis, John Lewis (1989). The Long Peace: Inquiries into the History of the Cold War. Oxford: Oxford University Press.

[xiv] Fukuyama, Francis (1992). The End of History and the Last Man. Nova York: Free Press.

[xv] Gama, Carlos Frederico Pereira da Silva (2017). “A Ceteris Paribus World? Economic Nationalism in the Age of Donald Trump”. Medium. Disponível em: https://medium.com/@CarlosFredericoPdSG/a-ceteris-paribus-world-economic-nationalism-in-the-age-of-donald-trump-47c358530b3c. Acesso em: 12 de Março de 2017.

Aumento do PIB e as dúvidas sobre a recuperação econômica do Brasil

Recentemente vimos como a mídia festejou o aumento do PIB do Brasil vaticinando o fim de uma recessão econômica, considerada uma das piores da história. Porém ao analisar o crescimento dos diferentes setores que compõe a economia, além de fatores importantes que refletem de forma direta e indireta, tais como o desemprego, trabalho informal e consumo, vemos que existem uma série de questionamentos em relação ao impacto desse resultado positivo na economia brasileira e principalmente na sua sociedade.

O ritmo do crescimento do PIB como forma de mesurar o aumento de uma economia tem sido fortemente criticado por autores como Amartya Sen e Thomas Pikkety, entre outros. Pois a soma do produto interno bruto dos diferentes países mesmo que trate de estabelecer uma forma padronizada e homogeneizada é incapaz de refletir dinâmicas inerentes de cada região, havendo uma distorção, que pode ser menor o mais elevada, conforme a própria composição da economia, os fatores endógenos e a qualidade das informações que circulam nesses contextos.

Também é importante ressaltar que uma análise anacrônica ou quantitativa de um determinado índice pode gerar uma concepção equívoca da realidade e uma obliteração da mesma. E não, não que eu esteja afirmando que não está havendo uma recuperação lenta e progressiva ou que o PIB não seja um parâmetro válido para avaliar esse processo, porém antes de falar de crescimento, é importante analisar não somente o dato de forma isolada, mas sua composição histórica ao longo de ao menos uma década e dessa forma compreender melhor a própria dinâmica dos ciclos econômicos típicos do sistema financeiro internacional que Marx atribuía a própria natureza do liberalismo.

É obvio que após uma profunda recessão qualquer dato positivo será bem recebido, porém antes de falar de crescimento é preciso contemplar uma etapa de recuperação e ainda falta bastante para que o Brasil possa de fato recuperar seus índices posteriores a crise.

Outro ponto importante ao falar do crescimento do PIB brasileiro é analisar quais foram os setores que cresceram. Conforme o IBGE, o agronegócio aumentou 13%, serviços 0,3 e indústria ficou estagnada. É fundamental saber analisar essas informações, pois o crescimento do agronegócio em um cenário positivo para as exportações, com uma moeda local desvalorizada, sem dúvidas gera um efeito positivo, por outro lado, o aumento da oferta no mercado local pressiona a inflação e impacta no consumo das famílias.

A leve recuperação do consumo ajudou a manter o fluxo econômico, porém é importante ressaltar o grau de endividamento familiar e as renegociações decorrentes da queda dos juros que geram um pequeno descanso para o bolso das famílias, mas que não necessariamente significa uma real ativação do consumo.

A paralização do governo (principalmente devido à crise política) e a suspensão de diversos projetos e programas, reduziram os gastos públicos, porém em um país como o Brasil, essa notícia ainda que possa gerar rendimentos a curto prazo, pode se transformar em uma caixa de pandora com o passar do tempo.

Pois é reconhecida a necessidade de infraestrutura para poder viabilizar o desenvolvimento econômico do país e o grande déficit que existe no Brasil. Nesse sentido as PPPS e PPIs formam importantes fontes de recursos, assim como a venda de diversas estatais, porém  somente o tempo será capaz de mostrar se houve uma estratégia econômica em relação a essas vendas geradoras de uma dinâmica positiva para a nação ou se foram apenas uma forma de tentar encher os cofres.

O desemprego é outro fator importante na hora de interpretar o significado dessa suposta recuperação econômica. O Brasil possuí um elevado grau de informalidade e não existe de fato um controle ou índice capaz de quantificar essa realidade e de indicar de forma precisa quantas pessoas vivem desse modo, tampouco existe um controle do perfil dos trabalhadores que podem ser duais (trabalham e exercem alguma atividade informal nas horas livres) ou até mesmo dos trabalhadores que integram os novos modelos de contratação. Fora a essa dificuldade estatística que enfrenta o Brasil é preciso somar que emprego não necessariamente significa uma melhoria real nos rendimentos, pois existe um abismo entre os ganhos reais da população e o custo de vida padrão das cidades brasileiras.

Sendo assim é fácil compreender porque muitas pessoas estão questionando o crescimento do Brasil, já que socialmente existem ainda muitas questões envolvidas, sejam em relação ao desemprego, ao baixo consumo ou a crescente deficiência de serviços por falta de recursos públicos e investimentos do governo.

Havendo uma discrepância entre a realidade macroeconômica da nação e a realidade microeconômica das pessoas, algo que se faz patente na obra de Thomas Pikkety e que vemos no nosso dia a dia.

Por último é fundamental visualizar a conjuntura global. A crise no Brasil coincidiu com uma forte queda no preço das commodities, baixa demanda internacional e uma redução das exportações que impactou na balança comercial, além da moeda (real) que estava mais valorizada que atualmente e com um elevado gasto público em todos os setores. Atualmente as commodities recuperaram seus preços, a balança comercial é positiva, o real está desvalorizado (incrementando a competitividade de nossos produtos) e o gasto público foi interrompido.

De modo que tal vez afirmar que o Brasil voltou a crescer não seja de fato uma realidade, o correto seria dizer que somente agora se inicia um ciclo de recuperação, mas que será necessário muito tempo e intervenções para transformar essa recuperação em um crescimento real e inserir a sociedade nesse processo sem defasar ao país ainda mais devido a uma baixa taxa de investimentos ou por terceirizar a estratégia de toda uma nação nas mãos do capital financeiro.

 

16508475_1856260734643784_2512335075699457974_nWesley S.T Guerra, Atua como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comércio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latino-americano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura e mestrando em Políticas Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Fundador do CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais.

Bibliografia:

O Capital no Século XXI, Thomas Piketty, Edição em 10-2014, coleção Temas e Debates, editor – Círculo de Leitores

On Economic Inequality, Amartya Sen. Expanded Edition, Oxford: Clarendon Press, 1997

Development as Freedom, Amartya Sem. Oxford: Oxford University Press, 1999

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estadísticas