Galiza, o galego e sua relação com a lusofonia.

No dia 17 de maio a região da Galiza (norte da Espanha) celebra o dia das Letras Galegas. A data foi instituída em 1963 pela Real Academia das Letras Galegas em comemoração ao centenário da publicação “Cantares Galegos” da escritora Rosália de Castro que marca o Ressurgimento do idioma galego moderno.

Embora a data seja desconhecida pelo grande público brasileiro assim como por diversos integrantes da academia nacional, o fato é que se trata de um marco importante não somente para Galiza como para Portugal, Brasil e demais países integrantes da lusofonia.

Para entender essa relação é necessário fazer um breve repasso histórico.

Após a queda do Império Romano e a invasão bárbara na península Ibérica, o território se dividiu em diversos estados feudais que com a invasão do império árabe em 711D.C foram pressionados ao terço norte da atual Espanha. Posteriormente estes reinos promoveram a chamada reconquista do território Ibérico.

O reino de Galiza foi um desses primeiros territórios, e nele se desenvolveu uma língua românica denominada Galaico  (Cabe lembrar que nesse momento não existiam os estados de Portugal e Espanha, mas sim um conjunto de reinos cristãos que lutavam na recuperação do território dominado pelos árabes) posteriormente o Galaico seria denominado Galaico-Português.

Dessa matriz linguística se desenvolveu o português luso (com a separação de Portugal em 1139 D.C) assim como suas variações a partir do século XVI nas diferentes colônias, tais como o Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Timor, etc. Por outro lado o galego permaneceu como língua regional fortemente pressionado pelo castelhanocentrismo do Reino da Espanha, e foi perseguido duramente durante os períodos de ditadura.

Atualmente o português e o galego moderno, embora sejam línguas irmãs são considerados idiomas diferentes desde uma perspectiva geopolítica, não havendo consenso na comunidade de filologia de ambas as regiões. Existem diversos movimentos culturais que buscam uma aproximação de Galiza com a lusofonia, uma vez que suas diferenças são mínimas e principalmente dialetais, sendo possível a compreensão mutua tanto escrita como falada em ambos os idiomas podendo ser considerada a mesma língua que evoluiu de forma paralela mediante fatores intrínsecos de seu posicionamento geográfico e político, assim como o castelhano falado na Espanha e o castelhano falado na Argentina e toda a região do Rio de la Plata e outros países. Porém fatores identitários e ideológicos dificultam essa aproximação.

A região de Galiza aprovou em 2014 a chamada Lei Paz Andrade que visa uma maior integração da região com a Lusofonia, espaço formado por 8 países com mais de 250 milhões de pessoas.

Embora a região esteja presente no Brasil mediante investimentos de grupos tais como a famosa marca de roupas ZARA da empresa Inditex ou a cervejaria Estrella de Galicia, muitos brasileiros desconhecem que o verdadeiro berço do seu idioma não foi Portugal, mas sim Galiza.

Por motivo da comemoração do dia das Letras Galegas, o CERES (Centro de Estudos das Relações Internacionais) entrevistou ao professor e ativista galego, Luís Fontenla Figueiroa, da Universidade de Santiago de Compostela e da Universidade de Nova de Lisboa, especializado em pedagogia pela Universidade de Vigo, para que nos explique a situação linguística da região e o ensino de português na Galiza que visa essa aproximação com a lusofonia e consequentemente com o Brasil.

CERES – Obrigado Prof. Luis Fontenla por participar dessa entrevista como CERES. Nosso principal objetivo é a democratização das relações internacionais de modo que para nós é muito importante saber sobre a realidade de outras regiões e suas relações com o Brasil e ir além da informação divulgada pela mídia ou instituições governamentais, promovendo dessa forma o senso critico de nossos participantes.

O senhor atua como professor de português na Galiza, uma região importante para nossa história, porém marginalizada pela historiografia. Ainda assim existem grandes sinergias e novas tentativas de aproximação, porém as mesmas têm sido pouco frutíferas, em sua opinião o que está falhando?

Prof. Luis Fontenla – Primeiramente obrigado pelo convite para a entrevista, sem dúvidas esta é uma forma de promover todas essas medidas além da mera atuação política e buscar sinergias entre a comunidade de ambas as regiões.

Eu tenho um grande interesse na relação entre Galiza e Portugal, sendo este um tema que me apaixona. De modo que vou começar fazendo uma breve apresentação de Galiza desde um ponto de vista local.  Somos uma região europeia com pouco mais de 2,5 milhões de pessoas das quais metade falam uma forma de português. Somos um povo antigo, imaginem que foi há 900 anos que o Condado Portucalense se separou da Galiza, mudando depois o nome da língua comum para português. Atualmente conservamos uma forma do idioma que até hoje se discute sua relação com o português moderno, sendo uma discussão marcada por interesses políticos. Durante a ditadura espanhola, o nosso especial português, que nós chamamos de galego, foi duramente perseguido, mas depois deste período o galego finalmente pode ser lecionado nas escolas. Nos dias de hoje mais de 80% dos habitantes conseguem falar o idioma, mas apenas a metade utilizam de maneira habitual.

Atualmente existem diversos interesses e certas inércias que devem ser vencidas. Caso a Galiza passe a integrar o espaço lusófono resultaria em outro interlocutor dentro da Europa e serviria de ponte da Lusofonia com a comunidade hispanofalante. Nesse sentido a nossa relação com o Brasil e demais países lusófonos é diferente, não apenas por termos o castelhano como segunda língua, mas por não termos uma posição de ter sido o “colonizador” como acontece com Portugal. Temos é uma possível posição partilhada, de origem, como Berço da língua… Podemos ser vistos como mais um parceiro que nunca foi metrópole colonial dos povos da comunidade lusófona. O Brasil sempre apoiou a participação da Galiza dentro da comunidade e até na participação galega no acordo ortográfico de 90. Já a respeito da Galiza tudo depende de quem ocupar a presidência do governo autónomo.

CERES – Em relação ao potencial das relações Brasil e Galiza deveram considerar que atualmente o português é visto como língua estrangeira perante a atual legislação o que pode dificultar essa integração, já que para um galego a aprendizagem do português pode parecer menos rentável que estudar outro idioma (inglês, francês, alemão…) ainda mais levando em consideração que ambas as línguas são irmãs é possível compreender e se expressar de forma escrita sem grandes dificuldades de ambos os lados. Por outra parte a Academia de Letras Galegas tem tido um papel inexpressivo dentro da Lusofonia, quais são as ferramentas que o senhor considera que poderia reverter esse quadro?

Prof. Luis Fontenla – Atualmente o português é considerado uma língua estrangeira para permitir a sua aprendizagem por parte do governo autónomo que é quem tem legalmente as competências em educação. Mas também isso reflete a tentativa de normalizar as tensões do seu estudo dentro da própria Galiza que já na década de 80 não alcançou o consenso da parte dos políticos em relação à questão da norma gráfica do idioma e até da própria identidade da língua. O debate é a respeito de se o falar galego como  apenas um idioma local ou uma modalidade do português. O principal  conflito acerca da utilização gráfica assenta na escolha da norma espanhola ou da portuguesa para escrever o idioma galego, sendo este um debate profundo com diversos interesses. Há uma matéria escolar língua galega, que utiliza a norma gráfica do castelhano e uma matéria escolar língua estrangeira portuguesa em que ensinamos português.  Em relação à Real Academia Galega (Academia das Letras Galegas) ela faz parte da política oficial do governo e depende deste. Em 2008 surge uma nova academia focada no português e no relacionamento lusófono, a Academia Galega da Língua Portuguesa. De modo que temos atualmente duas academias, uma depende do governo e outra está focada numa relação galega com a comunidade internacional.

CERES – Gostaríamos de entender desde seu ponto de vista, como é visto o português na Galiza e o papel dos professores na região? Quais são as dificuldades de implementar essa integração mesmo havendo leis para isso tais como a lei Paz Andrade? E como é feito a adesão do português?

Prof. Luis Fontenla – Bom em relação ao papel do professor eu acho que o seu papel é dotar a seus alunos de competências e capacidades no uso da língua portuguesa. Evitando uma posição marcada em relação às questões identitárias e políticas. Ainda existem alguns medos por parte dos políticos em relação ao papel do português na Galiza. Mas professores acreditamos em que aprender português é um elemento que contribuirá grandemente para valorizar os falares locais e aumentará a autonomia das pessoas mediante a obtenção de maiores conhecimentos. Uma pessoa pode aprender mais do que um idioma sem mudar o seu posicionamento político ou a sua identidade nacional. Porém existe esse medo por parte da classe política, de que o aumento das competências em português gere uma maior consciência social da importância dos falares galegos e da cultura galega.

 CERES – Existe algum apoio governamental de fato? O que pode ser feito para dar a conhecer o galego no Brasil e o português na Galiza? Como é possível transformar a Galiza em um hub de negociações usando seu potencial de articular as relações tanto com a lusofonia como com o mundo hispanofalante e finalmente tirar a mesma dessa marginalização econômica que sofre em relação ao centralismo espanhol?

Prof. Luis Fontenla – Em relação ao que deveria ser feito… Sem dúvidas é preciso apoio político, ouvindo mais à sociedade, potencializando o português no ensino secundário como foi solicitado constantemente. Há diversas medidas para mudar a situação atual que podem ser implementadas, a primeira é trabalhar em um novo consenso social acerca de qual deverá ser nas próximas décadas a língua comum de integração na Galiza (independentemente da grafia) sem por isso desprestigiar a existência e conhecimento de uma segunda língua que é nosso património (o castelhano). Galiza é uma região privilegiada, porém é necessário fazer a melhor das políticas linguísticas que é despolitizar as línguas. Isso só pode acontecer com uma aceitação do papel do português como uma variedade internacional do nosso falar galego que oferece mais recursos do que os gerados unicamente no que nos chamamos no nosso “País” de galego. Não se pode comparar a produção de produtos culturais galegos isoladamente com a enorme oferta cultural do espanhol, de modo que é preciso  fazer uso da normativa europeia que permite o uso do português em televisões, rádios e imprensa para complementar a produção cultural na Galiza. Para vocês entenderem, se temos cinco jornais espanhóis nos espaços de leitura públicos, devemos ter cinco em português ou galego, cumprindo assim tanto com o estabelecido pela lei da Espanha como também pela normativa europeia. A legislação já existe. Somente temos de disponibilizar recursos para a população.

CERES – Muito obrigado pela sua participação Luis e por nos proporcionar maiores informações sobre a região da Galiza e do português dentro da Espanha e da própria União Europeia. Sem dúvidas essa informação é importante, para conhecer a dinâmica linguística entre estados, a relação histórica e a própria evolução política e cultural da Espanha e Portugal que foram os primeiros Estados Modernos, mas que continuam enfrentando uma série de paradigmas e paradoxos, com movimentos identitarios, diferentes línguas e fatores culturais.

Prof. Luis Fontenla – Obrigado pelo convite e por me oferecer este espaço para falar da situação do português na Galiza, sendo meu intuito direcionar o meu discurso para o ouvinte que se localiza fora da Europa, lhe fornecendo o ponto de vista de um cidadão que ama a sua língua. Para quem tem maiores interesses existem organizações e associações que oferecem maiores informações. Assim mesmo recomendo a produção cultural da Galiza que é crescente e que oferece uma grande diversidade, tanto a nível musical, literário ou no teatro. Afinal as atividades culturais podem vir a ser uma ponte interessante entre Brasil e a Galiza.

luisf.JPG

Luís Fontenla Figueiroa estudou Filologia Portuguesa na Universidade Santiago de Compostela (USC) e na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL – Estudos portugueses) ampliando posteriormente a sua formação pedagógica na Universidade de Vigo (Uvigo).  É professor de português e ativista da língua na Galiza, participando em diferentes associações e eventos culturais ou escrevendo artigos de opinião em diferentes jornais ou revistas.

Além de professor, já foi tradutor, padeiro, trabalhador florestal e habitante da montanha numa comunidade local. Transitou pelos caminhos da produção biológica local e dos circuitos de consumo responsável. 

Na atualidade mora com a sua família perto da cidade da Corunha (Comunidade Autónoma da Galiza) e desenvolve a sua atividade profissional no ensino/aprendizagem da língua portuguesa em centros de ensino público.

CERES membro da OIPD!

Prezados membros e seguidores temos o prazer de lhes notificar que o CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais foi aprovado para fazer parte do OIDP – International Observatory on Participatory Democracy (Observatorio Internacional da Democracia Participativa) esse é o reconhecimento a todos nossos esforços por democratizar as relações internacionais e reforçar a democracia e participação da sociedade nos processos internacionais! Obrigado a todos que acreditam em nosso trabalho!!!
https://oidp.net/

A Window upon Constraints: Three years after popular vote, the UK still requests further Brexit delays

Three years after popular vote, the UK still requests further Brexit delays

Carlos Frederico Pereira da Silva Gama[i]

Three years after “leaving the European Union” conquered 52% of the votes in a national referendum, British Prime Minister Theresa May (Conservative Party) still seeks further extensions of the Brexit implications from an increasingly impatient EU. As the psychodrama unfolds, acrimony has already spread between the Azores and the Urals. From fashionists in Milano to dock workers in Gdansk, everyone is figuring out their lot in the losing game these days.

Enough promises have been locked up ever since. May become a hostage in the Brexit bus – unable to break a deal at the Parliament, yet resilient in 10 Downing St, as the prolonged stalemate broke the ranks of government and opposition alike (not to mention a sharp downturn of economic indicators). The EU kept the upper hand in forcing a debilitated May through successful legislative ordeals. The latest trial was an 11-hour attempt of compromise with other Leave enthusiast, Jeremy Corbyn (Labour Party), in which a contested premier gradually endorsed the circumvention of parliamentary rules.     There is no doubt the EU is now the political arbiter of the continent – but at a sorrowful economic cost.

In France, apocalyptic scenes of hundreds of trucks stranded on the way to Calais have been, for the moment, averted. However, a Eurostar strike on the French side of the channel sent alarming signs. Slightly relieved from the gilets jaunes at the domestic front, President Emmanuel Macron doubled the pressure on the UK, sidelined by Irish Taoiseach Leo Varadkar. As the closest neighbours, they are the ones with the most to lose from Brexit. No surprise, they are indulging in raising exit costs for May.

In an age where Italy and Greece adhere to China’s Road and Belt Initiative[ii], 73% of Italians would spend more in acquiring “Made in Italy” products if given the choice, as stated in a poll conducted by Metro newspaper[iii]. For a country six decades into the Union, the finding sounds slightly disturbing. This paradox – integrated economies in globalized capitalism, where consumers confer preferential treatment to national product – stem from market structures.

Between the 1950s and the 1980s, Western Europe was under the sway of a dual process of post-war reconstruction and regional integration. When Euro-enthusiast neofunctionalists provocatively proposed that integration would eventually go “beyond the nation-state”[iv], not only Charles de Gaulle disagreed at the time. National efforts of supporting old and new industries alike fed additional integrating moves – the prototypical example is the Schuman Plan[v]. There was also ample room for (anti-Soviet) nationalism in the burgeoning economies of mid-20th century Europe. As millions of immigrants from former colonies in Africa and Asia provided indispensable contributions to post-war efforts, the state of European integration could be framed as some kind of “cooperative nationalism”[vi].

Cut to the next century. Those now mature developed economies seem landlocked in slow growth[vii] (not to mention population stagnation, with the possible exception of a reunified Germany). Abroad, competition intensified with a contested US as well as with rising emerging economies from South Asia (including awoke giants Japan, China and India). Managing immigration become an EU cornerstone.

Unintended consequences of a successful integration process brought European Union member states against one another in competitive abundance[viii]. Post-Cold War nationalism moves in disintegration pushes, forcing any safe boundaries sketched by the Brussels bureaucracy. Brexit is only the most acute symptom of those anxieties experienced by liberal democracies in globalization’s ongoing crisis.

The EU got used to the situation in which a weak British government is too legit to quit without a deal. However, as the deadline for holding communitarian elections (by the end of May) becomes more pressing, a paradoxical situation gains traction. By further weakening Theresa May, the alternatives offered by chief negotiators Donald Tusk and Michael Barnier turn the Brexit novel into an exemplary case on how not to leave the Union. A customs Union – the so-called “soft Brexit” or “Norway deal” – effectively leaves behind the rationale victorious at the 2016 referendum[ix]. Promises of the UK as a free trade champion become meaningless, at the cost of the cohesion of the Conservative Party.

Besides any pedagogical impacts for the remaining 27 member states, the fall of May raises the stakes for another group of interlocutors – and bring them to play. A snap election at the United Kingdom would result in beleaguered triumphs (a hard Brexiter minority government or a Corbyn administration). A baffled EU would be left with unattractive options: making unilateral concessions to an even weaker British government, in order to avoid even higher costs of no-deal. A long extension – the kind May finds unacceptable by now – maximizes, therefore, different risks of the UK crashing out without a deal.

Regional integration can no longer walk unafraid through the lines of minor resistance in a thriving globalization[x]. As constituencies and governments face complex choices, political hurdles pile up.

Disentanglement from a regional integration mechanism is not simply a divorce. British attorney-general Geoffrey Cox clearly stated that: “I feel we underestimated complexity. We are unpicking 45 years of in-depth integration. This needed to be done with very great care, in a phased and graduated way[xi]”. As the EU’s emergency Brexit summit approaches, though, May seems to be running out of time.

colaborador

[i] Visiting Professor – Al Akhawayn University in Ifrane (Morocco). Professor of International Relations – Universidade Federal do Tocantins (Brazil)

[ii] Lynch, C. (2019). “Bolton Builds Anti-China Campaign at the U.N.”. Foreign Policy. Retrieved from: https://foreignpolicy.com/2019/04/03/bolton-builds-anti-china-campaign-at-the-u-n/. Access in: April 05 2019.

[iii] Metro (2019). “Punti de Vista, Lunedi, 25 febbraio 2019”, pp.8.

[iv] Haas, E. (1964). Beyond the Nation-State: Functionalism and International Organization. Stanford, Stanford University Press.

[v] Ionescu, G. (1972). The New Politics of European Integration. London: Palgrave Macmillan.

[vi]  Young, J.W. (1993). Britain and European unity, 1945-1992. New York: St. Martin’s Press.

[vii] Donce, L. (2019). “La ‘japonización’ de la economía europea”. El País. Retrieved from: https://elpais.com/economia/2019/04/05/actualidad/1554477454_725646.html. Access in: April 07 2019.

[viii] Gama, C.F.P.S. (2019). “Unification among contradictions: Germany and Europe face globalization in crisis”. Sociology International Journal, Volume 3, Issue 1, pp. 61-63.

[ix] Gama, C.F.P.S. (2018). Exit Brexit. Mundorama. Retrieved from: https://www.mundorama.net/?p=24842. Access in: September 25 2018

[x] O’Sullivan, M. (2015). “Is Globalization Thriving or Coming to an End?” Credit Suisse. Retrieved from: https://www.credit-suisse.com/corporate/en/articles/news-and-expertise/is-globalization-thriving-or-coming-to-an-end-201510.html. Access in: October 09 2015.

[xi] BBC. “Political Thinking with Nick Robinson – The Geoffrey Cox one”. Retrieved from: https://www.bbc.co.uk/programmes/p075k2tj. Access in: April 04 2019.

ANÁLISE DE POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA: COMO FAZER? E O QUE ESTÁ ACONTECENDO?

Por Danilo Sorato*

A recente eleição no Brasil reavivou o debate sobre a Política Externa Brasileira. Em parte, fruto da personalidade popular do candidato do PSL, Jair Bolsonaro, mas também pelo maior fluxo de informações difundidos pelo mundo digital. Agora, as pessoas têm a possibilidade de acompanhar de perto as ações e estratégias da agenda internacional, especialmente em mídias sociais, como facebook, twitter, dentro outros, como mostra Ayres (2018).

Diante desse cenário crescente da Política Externa, questiona-se quais elementos principais são necessários para que o profissional de Relações Internacionais consiga produzir uma boa análise. Dessa forma, algumas habilidades são fatores chaves para que o analista de Política Externa consiga emitir um parecer equilibrado entre a realidade e a prospecção.

Mendes (2015) aponta que o campo de Análise de Política Externa possuem 4 vertentes. A abordagem tradicional, científica, racional e ideológica. A primeira entende o papel central dos estados na dinâmica das políticas externas. A segunda amplia o olhar de análise ao perceber a tomada de decisão dos agentes estatais. A racional aponta para o julgamento dos benefícios e prejuízos calculados pelos “decision making”. E a ideológica mostra como cada agente tem uma visão própria na ação internacional.

Esse resumo do campo de Análise de Política Externa é importante para que seja compreendido a escolha tomada pelo autor do texto. Aproveitando cada abordagem acima, defende-se que o analista de Política Externa deve fazer uma abordagem eclética, isto é, precisa levar em consideração fatores em seu parecer como: 1) atores múltiplos; 2) ambiente internacional ou externo; 3) ambiente doméstico ou interno; 4) ideologia ou percepção; e 5) tempo.

peb.png

Fonte: Danilo Sorato, 2019.
O infográfico acima resume, os pontos essências em que o bom analista deve se atentar quando for emitir algum parecer sobre Política Externa dos países. O primeiro ponto é entender que o mundo não é composto apenas de estados, mas que há uma gama de “players” como Organizações Internacionais, empresas transnacionais, ONG’s, dentre outros. Eles são figuras que modificam decisões e estratégias em Política Externa.

Depois, o segundo elemento é analisar o ambiente externo em seus variados sentidos e dinâmicas. A contextualização política, econômica, cultural do sistema internacional é essencial para perceber quais as limitações e variáveis que o agente político de um estado possui ao implementar a sua agenda de Política Externa.

Após, o terceiro elemento é o entendimento do contexto interno, sobretudo em seus aspectos políticos, econômicos, sociais e culturais. Nesse âmbito, perceber quem formula a Política Externa, tanto de forma constitucional, quanto através de grupos de interesses, é fundamental para uma ampla visão da agenda internacional.

Em seguida, o quarto elemento é saber que todo o tomador de decisão tem uma visão própria da realidade, isto é, tem uma percepção individual sobre os fatos. Portanto, são ideológicos e perceptíveis no sentindo de entender porque escolhem um certo parceiro estratégico e não outro.
Por fim, o quinto elemento é entender a dinâmica do tempo. O bom analista sabe equilibrar em seus pareceres o sentido de realidade e prospecção. Em outras palavras, ele analisa as ações e estratégias internacionais dos países que aconteceram de fato. Porém, ele deve entender que parte das suas funções é compreender ações e estratégias no futuro. Aqui, faz-se necessário dizer que antecipar agendes de Política Externa é fundamental.

A Política Externa Brasileira de Temer e Bolsonaro: Caminhos similares

Em maio de 2016, José Serra, assumi como Chanceler de Michel Temer. Em seu discurso de posse, ele traça onze princípios, nos quais denomina “A Nova Política Externa Brasileira”. Para entender as semelhanças entre o período Temer e Bolsonaro, escolhe-se três direções em que há coincidência de posições, no caso: a ideologização, o comércio e a segurança.

Ideologização: sai bolivarianos, entra ocidentais
O primeiro ponto da agenda aponta para a ideia de que a Política Externa não é ideológica, segundo Serra (2016). Esse discurso, dentro da teoria de Mendes (2015), não é totalmente real. Em verdade, o processo de “desideologização” busca afasta o país de parceiros estratégicos do período do partido dos trabalhadores (PT), como Venezuela, Nicarágua, Cuba, etc. Em seu lugar, entram os países tradicionais como Estados Unidos, Alemanha, França, dentre outros.

O Chanceler é responsável pelo aumento do tom na crise da Venezuela. Mas não apenas isso, ele inicia o processo de suspensão do MERCOSUL daquele país vizinho em 2016. Essa ação coletiva do Cone Sul é finalizada na gestão seguinte de Aloysio Nunes em dezembro de 2017.

O sucessor de Serra, a partir de março de 2017, mantém as linhas de seu colega de partido, o PSDB. E vai além, ao em agosto de 2017, ser o articulador da criação do Grupo de Lima. Essa concertação de 12 países tem como finalidade aumentar a pressão sobre o governo de Nicolas Maduro. Também, é com Nunes, que o afastamento perante a Nicarágua se inicia entre 2017 e 2018.

Aqui, a coincidência de posições entre os governos Temer e Bolsonaro ficam nítidas. Ao assumir em janeiro de 2019 como Chanceler, Ernesto Araújo, não apenas utiliza as mesmas estratégias contra a Venezuela, mas aproveita o Grupo de Lima para não reconhecer o novo mandato de Maduro (2019-2025).

Nesse mesmo intuito, além de colocar a prioridade de parcerias com os países ocidentais, sobretudo com Estados Unidos, ele inova ao trazer países como Itália, Polônia, Hungria e Israel. Eles todos estiveram na primeira semana de janeiro para reuniões de trabalho com o Chanceler de Bolsonaro.

Comércio: O ponto central da Política Externa

O segundo ponto da agenda demonstra a prioridade de temas econômicos-comerciais em Política Externa. Segundo Serra (2016), a diplomacia brasileira deve enfatizar a busca de investimentos estrangeiros e criação de acordos de livre comércio. Em decorrência do contexto internacional em crise, a estratégia é somar recursos do exterior, o que inviabiliza outros assuntos como cultura, educação, etc.

Nesse aspecto, Serra consegue enfatizar em seu discurso o tema, mas seu sucessor, Nunes, é quem consegue efetivar ações nesse campo. O grande destaque é assinatura do acordo de livre comércio com o Chile em novembro de 2018. Além disso, deixa em negociações comerciais para novos acordos, em formato coletivo via MERCOSUL, com o Canadá, Coreia do Sul, Singapura e EFTA.

O chanceler de Bolsonaro, Araújo, deve assumir essa pauta negociativa para finalizar os acordos de livre comércio. Além disso, como já disse em seu discurso de posse, Araújo (2019), procura criar novos instrumentos jurídicos comerciais. Para ele, a diplomacia tem que agir com a finalidade de captar recursos financeiros para o desenvolvimento do país.

Segurança: O combate aos crimes transnacionais na fronteira

O terceiro ponto da agenda diz que as fronteiras brasileiras necessitam estar seguras contra o narcotráfico e os crimes transnacionais como aponta Serra (2016). Após um longo processo de esquecimento, o assunto iniciado no pós-Guerra Fria (re) assume a prioridade estratégica para diversos setores do país, especialmente as Forças Armadas, o Parlamento, etc.

Com Serra são criados o mecanismo de reunião entre chanceleres da América do Sul para tratar desse tema. O seu sucessor, Nunes, aprofunda as ações e estratégias com a criação de um setor administrativos nas embaixadas brasileiras da região para tratar do assunto. Ademais, é responsável por iniciar reuniões bilaterais com os vizinhos fronteiriços a fim de concertar atitudes contra o crime organizado e outros crimes correlatos, inclusive assina um ato internacional com a Bolívia sobre isso.

Por fim, Araújo, embora não tenha falado nesse tema em seu discurso de posse, ou ainda não tenha conseguido criar ações, o assunto é uma pauta estratégica da plataforma eleitoral de Jair Bolsonaro e dos setores militares do seu mandato. Esses sinais são fundamentais para que o analista consiga fazer uma prospecção equilibrada, apesar de não ter nenhuma ação concreta na realidade. Entretanto, em mensagem ao Congresso Nacional na abertura legislativa, o presidente Bolsonaro (2019) confirma a prioridade na temática de segurança nas fronteiras.

REFERENCIAL

ARAÚJO, E. Discurso do ministro Ernesto Araújo durante cerimônia de Posse no Ministério das Relações Exteriores – Brasília, 2 de janeiro de 2019. Publicado em 03 de janeiro de 2019a. Disponível em: http://www.itamaraty.gov.br/pt-BR/discursos-artigos-e-entrevistas-categoria/ministro-das-relacoes-exteriores-discursos/19907-discurso-do-ministro-ernesto-araujo-durante-cerimonia-de-posse-no-ministerio-das-relacoes-exteriores-brasilia-2-de-janeiro-de-2019. Acesso em: 08/01/2019.

AYRES, A. O Twitter de Donald Trump: Análise do discurso à luz dos novos estudos de segurança internacional. TCC (Monografia em Relações Internacionais), Universidade Federal do Amapá, Macapá, 2018.

BOLSONARO, J. Mensagem ao Congresso Nacional, 2019: 1ª Sessão Legislativa Ordinária da 56ª Legislatura. Brasília: Presidência da República, 2019. Disponível em: http://www.casacivil.gov.br/central-de-conteudos/downloads/mensagem-ao-congresso-2019/. Acesso em: 06/02/2019.

SORATO, Danilo. Uma análise de política externa brasileira: A continuidade dos governos Temer e Bolsonaro. 2019. Monografia (Graduação em Relações Internacionais) – Universidade Federal do Amapá, Macapá, não publicado [no prelo].

MENDES, P. A raiz e o fruto na análise da política externa. Lisboa, Relações Internacionais, n. 16, dez./ 2015, p. 129-144. Disponível em: http://www.ipri.pt/images/publicacoes/revista_ri/pdf/ri16/RI16_10PEMendes.pdf. Acesso em: 10/02/2019.

NUNES, A. Texto-base para o discurso de posse do Ministro de Estado das Relações Exteriores, Aloysio Nunes Ferreira – Palácio Itamaraty, 7 de março de 2017. Publicado em 07 de março de 2017. Disponível em: http://www.itamaraty.gov.br/pt-BR/notas-a-imprensa/15829-texto-base-para-o-discurso-de-posse-do-ministro-de-estado-das-relacoes-exteriores-aloysio-nunes-ferreira-palacio-itamaraty-7-de-marco-de-2017. Acesso em: 13/01/2019.

SERRA, J. Discurso do ministro José Serra por ocasião da transmissão do cargo de ministro de estado das Relações Exteriores. Publicado em 18 de maio de 2016. Disponível em: http://www.itamaraty.gov.br/discursos-artigos-e-entrevistas-categoria/ministro-das-relacoes-exteriores-discursos/14038-discurso-do-ministro-jose-serra-por-ocasiao-da-cerimonia-de-transmissao-do-cargo-de-ministro-de-estado-das-relacoes-exteriores-brasilia-18-de-maio-de-2016. Acesso em: 26/11/2018.

20181221_120139_3.jpg*Gestor em serviços de Inteligência e Inovação na empresa Xibé – Inovação em alimentos!, Professor de História para os segmentos de Ensino Fundamental I, Ensino Fundamental II e Ensino Médio. Graduado em História pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Amapá (UNIFAP). Mestre em Ensino de História pelo Programa de Pós-Graduação em Ensino de História pela Universidade Federal do Amapá (MH/UNIFAP), coordenado nacionalmente pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atua como membro-pesquisador do Laboratório Virtual de Ensino de História (LVEH) e pesquisador do Laboratório de Relações Internacionais e Geopolítica (LABRIGEO). Tem interesse de pesquisa nos seguintes temas: Ensino de História, História Contemporânea, História das Mentalidades, Relações Internacionais, Política Externa, Defesa e Inovação. Contato: danilosorato@hotmail.com.

Ação Internacional dos Parques Tecnológicos

Com a globalização e o surgimento de novos atores no cenário internacional houve uma dispersão das atividades e uma série de mudanças no relacionamento entre as organizações. Embora algumas áreas apresente maior grau de desenvolvimento, tais como a diplomacia empresarial e a paradiplomacia, novas formas de interações estão surgindo no panorama mundial devido e a descentralização dos estados e ao engessamento cada vez maior da diplomacia oficial.

Neste contexto surgem novos movimentos tais como a diplomacia acadêmica e tecnológica, assim como fórmulas antigas ganham um novo formato tais como a diplomacia religiosa sob a tutela do Papa Francisco ou a diplomacia médica.

A tecnologia tem sido uma ferramenta importante na disseminação das atividades internacionais e na capacidade das organizações de diferentes formatos em sua interação com homólogos e parceiros de outras nações, reduzindo o grau de burocracia, agilizando os processos de transferência e consequentemente incrementando os resultados.

A Revolução 4.0 surge nesse processo como propulsor do incremento dessas atividades ao ampliar a convergência entre o mundo físico e o mundo virtual (que carece de fronteiras e cuja legislação ainda é tímida) promovendo uma maior aproximação dos centros de pesquisa, tais como os parques tecnológicos.

Os parques tecnológicos são aglutinadores das atividades de pesquisa e inovação, além de importantes polos de geração de emprego e tecnologia, motivos estes que explicam sua crescente atividade no âmbito internacional fomentada pela Revolução 4.0 e por sua capacidade de induzir mudanças locais atuando como indutores do desenvolvimento e cooperação.

Países como França, Estados Unidos e Espanha, já possuem parques tecnológicos integrados que fazem sua própria promoção e negociação internacional. Entre as diversas vantagens que apresentam tais atividades podemos destacar a capacidade de atração de investimentos, maior mobilidade de pesquisadores, incentivos ao empreendedorismo e maior capilaridade na comunidade local assim como uma plataforma mais sólida para a obtenção de apoios internacionais e subsídios.

Uma forma de explicar a diplomacia realizada pelos parques tecnológicos é usar como exemplo o grupo Eurecat (https://eurecat.org/es/) da Catalunha – Espanha, que está formado pelos principais centros de pesquisa da região além da participação de empresas de diferentes origens e portes, e incubadoras, atuando de forma integrada e conjunta em seus relacionamentos.

Dessa forma, uma pequena startup pode se aproveitar das ações realizadas pelo parque tecnológico ou se apresentar a programas de financiamento e subsídios da União Europeia usando o próprio parque como referência. Grandes multinacionais podem usufruir dos resultados das pesquisas locais, Centros Universitários podem desenvolver novos serviços, Empreendedores podem buscar orientações e internacionalizar seus projetos, etc…

Assim mesmo a ação do parque servirá como forma de promover o nível tecnológico da região sem se concentrar em uma organização específica, estabelecendo uma relação de win to win.

No caso do Brasil, a pesquisa e inovação foram historicamente concentradas nas instituições públicas em sua maioria de âmbito federal, sem embargo, a crescente descentralização do país e o aumento da demanda nacional assim como os efeitos da globalização e da Revolução 4.0 estão permitindo uma maior movimentação e criação de novos parques tecnológicos que atuam tanto como vetor de crescimento econômico em suas regiões, como também catalizador de cooperação e transferência internacional sem a interferência direta do governo central.

A vantagem de promover a internacionalização dos parques tecnológicos e aumentar a sua participação internacional é a de incrementar a competitividade da cidade ou região através de uma participação tanto a nível local como global, sendo sem dúvidas algo viável e adaptável à realidade de cada município e que deve concentrar tanto a iniciativa pública quanto a privada gerando um espaço de cooperação e colaboração.

Wesley S.T Guerra

16508475_1856260734643784_2512335075699457974_nGraduado em Comércio Internacional e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de El Prat de Llobregat em parceria com a Universidade Pompeu Fabra em Barcelona, ​​graduado em Administração de Empresas (Administração) pela Universidade Católica de Brasília, Mestrado em Política Internacional e Relações Internacionais na FESPSP – Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, MBA Global Partnership no ILADEC – Instituto Latinoamericano para o Desenvolvimento da Ciência e Culturas da Educação, MBA em Marketing Internacional no Instituto de Negócios Massachussets e Mestrado em Políticas Sociais e Desenvolvimento com especialização em migração na Universidad de Coruña (Espanha).

Membro da Associação Internacional de Estudantes de Ciências Políticas da IAPSS, do Conselho de Smartcities, da Aliança Eurolatina para Cooperação de Cidades, da Rede Bee Smartcities e do ECPR Consorcio Europeu para a Investigação Política.

Fundador do Think Tank CERES (Centro de Estudos de Relações Internacionais).

Bibliografia:

KEISER, Robert., Subnational Governments as Actors in International Relations: Federal Reforms and Regional Mobilization in Germany and the United States, Stuttgart, 2000.

SASSEN. Saskia. The Global City: Strategic site, New Frontier. Managing Urban Futures, 2016.

S.T Guerra, Wesley. O Papel da paradiplomacia na internacionalização de Empresas. CEIRI. https://ceiri.news/o-papel-da-paradiplomacia-na-internacionalizacao-de-empresas/

S.T Guerra, Wesley. Paradiplomacia, um vetor de desenvolvimento econômico. Cidadão do Mundo. https://cidadaosdomundosite.wordpress.com/2016/05/04/paradiplomacia-um-vetor-de-desenvolvimento-economico-por-wesley-s-t-guerra/

S.T Guerra, Wesley. Smartcities. Cidades Globais no declínio dos autores internacionais. CEIRI. https://ceiri.news/das-smartcities-cidades-globais-no-declinio-dos-atores-internacionais/

Amazonía en peligro, el efecto Bolsonaro

Sin duda alguna la cumbre de Rio de Janeiro en 1992 también conocida como Eco92, Rio92 o Cumbre de la Tierra, fue el principio de la agenda global para el medio ambiente tal y como la conocemos hoy.

Importantes convenciones surgieron en ese encuentro, que contó con la participación de las principales economía del mundo. La Carta de la Tierra o Convención de Rio de Janeiro, así como las convenciones para la diversidad biológica, la lucha contra la desertificación y la convención cuadro para el cambio climático son frutos de ese encuentro que dieron inicio a la llamada agenda verde o agenda 21.

Desde entonces una serie de convenciones fueron avanzando en la lucha por el medio ambiente y la sostenibilidad. El Protocolo de Kyoto, la Carta de Bali, el Acuerdo de Copenhague entre otros, fueron fortaleciendo las metas así como las posibles sanciones a los países que no incumplían los acuerdos.

Veinte años después en el  2012, la ciudad de Rio de Janeiro volvió a ser escenario para el encuentro Rio+20, cuyo objetivo fue el de evaluar los resultados de la Agenda 21. La conferencia ocurrió en plena Crisis Financiera Internacional lo que sin duda resultó en diversas presiones. Por un lado los países desarrollados (principalmente Europa) abogaban por una mayor rigidez en el cumplimiento de las reglas, por otro lado los países en vías de desarrollo junto con los Estados Unidos buscaban formas de equilibrar el aumento de la industria con las exigencias de protocolo. En ese momento Brasil era no tan sólo el anfitrión sino también el puente de diálogo entre esos dos mundos.

Si por un lado Brasil buscaba aumentar su grado de desarrollo, por el otro mantenía la matriz energética más limpia del mundo (según informe de la propia ONU) y había logrado reducir la destrucción de la selva en más del 80% según la Agencia Espacial Americana. El hecho de tener en su territorio más del 70% de la mayor selva tropical del mundo, una de las 3 mayores reservas de agua potable  y la mayor biodiversidad del planeta, hacía de Brasil el principal interesando en la composición de una agenda global donde la preservación no tan sólo sería una meta ideológica sino también una forma rentabilizar su propio patrimonio ambiental, logrando de esa forma, un puesto de liderazgo geopolítico al tratarse del tema. Una especie de Softpower verde.

En la actualidad, la elección del líder conservador de extrema derecha, Jair Bolsonaro, pone en riesgo el protagonismo de Brasil en la Agenda Verde Global. El país ha sorprendido el mundo al negarse a celebrar la COP25 (Conferencia de las Naciones Unidas para el Cambio Climático) a pedido del futuro presidente, lo que daría continuidad a la tradición del país en cuestiones de medio ambiente y sostenibilidad.

El posicionamiento del futuro presidente de Brasil no tan sólo pone en riesgo el papel de Brasil en la agenda para el medio ambiente global, sino que los propios recursos naturales del país y su diversidad biológica. Bolsonaro ya declaró a la prensa su intención de privatizar las grandes reservas de agua, permitir la caza de animales salvajes, no hacer nuevas demarcaciones de territorios indígenas e incluso permitir una mayor exploración de la llamada “Amazonía legal”, parte de sus propuestas están disponibles en su plan de gobierno localizado en su página de internet así como en las notas del equipo de transición.

Pero sin dudas la declaración que más impactó a la comunidad nacional e internacional, fue durante una visita de Jair Bolsonaro a los Estados Unidos en 2016, donde afirmó por primera vez que la Amazonía debería ser privatizada o cedida al país norteamericano, en agosto del 2018 volvió a declarar lo mismo en una entrevista para el periódico español El País.

Recientemente, el presidente electo de Brasil volvió a generar polémicas, cuando intentó unir el ministerio de medio ambiente con el de agricultura y al declarar que acabaría con la fiscalización abusiva del IBAMA (Instituto Brasileño del Medio Ambiente y de los Recursos Naturales) aumentando las presiones internacionales de organizaciones como la ONU y ONGS como GreenPeace.

fiscalizacao_toras.jpg

Foto: Fiscales del Ibama controlando la tala de madera en la Amazonía. Fuente: Ibama.gov.br

El sector de la agricultura y la ganadería son el gran apoyo del futuro presidente de Brasil junto con importantes grupos evangélicos y conservadores, y aunque Bolsonaro tan sólo será nombrado presidente en el próximo enero, la transición de su gobierno ya genera dudas e incertezas, sobre todo para el medio ambiente.

La Amazonía no representa tan sólo al futuro de Brasil, sino que el de la humanidad y su conservación debe ser prioridad.

16508475_1856260734643784_2512335075699457974_nWesley S.T Guerra, Atua como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comércio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latino-americano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura, MBA em Marketing pelo Massachussets Institute Of Business e Mestrado em Políticas Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). PHD Candidate Escuela de Doctorado de la Facultad de Sociología y Economía de La Coruña. Membro do Smart City Council. Fundador do CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais.

O Brasil de Jair Bolsonaro na ressaca da Globalização Liberal

Carlos Frederico Pereira da Silva Gama[i]

 

Após duas décadas de governos que viveram os êxitos da globalização pós-Guerra Fria, o Brasil amanheceu em 2019 sob nova direção, saturado de outros slogans. O retorno a concepções nacionalistas de décadas (senão séculos) atrás, à primeira vista, configura um retrocesso brutal.

Não obstante, o Brasil soberanista não retorna à revelia de dinâmicas – ironicamente – globais.

A busca pela nacionalidade como refundação da comunidade política indica os limites da forma de globalização que predominou após a queda do Muro de Berlim. Mais precisamente, o retorno do nacionalismo em escala global uma década após a crise de 2008 se tornou possível após a frustração com diferentes transformações buscadas nos primeiros anos da crise[ii] – as Jornadas de Junho de 2013 no Brasil, a “Primavera Árabe”, os “Indignados” na Espanha, o movimento “Occupy Wall Street” nos Estados Unidos, etc.

Nesse caso, as mudanças consolidadas pelo novo governo de Jair Bolsonaro vão além da impressão de um revival de períodos anteriores da história brasileira, misturados sem cerimônia.

Por um lado, o novo governo brasileiro não esconde suas fontes de inspiração no plano externo. Analogias com Donald Trump são abundantes e se banalizaram, à exaustão, ao mesmo tempo que ocultaram algumas diferenças importantes. A ascensão do milionário midiático veio pelas mãos de um dos dois grandes partidos da República dos federalistas e seu governo conta com relevante número de ocupantes de postos de destaque herdados de administrações anteriores. A novidade de Trump é menos estrutural que contextual: um presidente em desacordo com os códigos que regeram relações entre a Casa Branca e o “pântano” de Washington desde 1865[iii].

A tentativa de associação com líderes ultranacionalistas na Europa (como Viktor Órban na Hungria) oculta uma diferença substancial no espaço de atuação da política externa. Em tempos de Brexit, a Hungria negocia suas capacidades soberanas no seio de uma União de estados em escala continental. Na América Latina, porém, não dispomos de alternativas comparáveis. As esperanças de integração mercosulina se esvaíram ao longo de três décadas de alternância de perfil. A ênfase mercantil que derivou do Tratado de Assunção e foi propalada pela criação da OMC sobreviveu até a quebra da economia argentina. Em seguida, o bloco passou a atuar como órgão de gestão política no nível dos estados, mais próximo do Conselho Europeu do que da Comunidade Europeia. O MERCOSUL não logrou consolidar uma identidade corporativa[iv] e se tornou opção de menor impacto no seio da política externa brasileira no século em curso[v].

Ao passo que a integração regional se tornava mais modesta, o Brasil se apresentava como um país emergente diante do qual todas as opções estavam postas à mesa. O pragmatismo brasileiro jamais abriu mão em definitivo de importantes parcerias, mercados para seus produtos e elos culturais. A participação no grupo BRICS não foi impeditivo para uma candidatura à OCDE. A recusa de Dilma Rousseff em visitar os Estados Unidos após o escândalo de espionagem revelado por Edward Snowden se mostrou efêmera, diante dos interesses que conectam os dois países. A priorização da América Latina durante os governos Lula não impediu um vigoroso aumento das relações econômicas com países desenvolvidos. Fernando Henrique Cardoso agiu como estadista ao condenar o golpe de estado contra Hugo Chávez na Venezuela – sem simpatia pelo regime bolivariano, então propagado como o “socialismo do novo século”.

Mesmo em meio a polêmicas intermitentes no plano externo o Brasil soube agir cautelosamente.   Parte da surpresa (em escala mundial) suscitada pela eleição de Bolsonaro se deve a esse perfil. Não obstante, as transformações vividas no Brasil contemporâneo não são inéditas e são comparáveis àquelas experimentadas por outros países diante dos efeitos da crise de 2008 após um expressivo crescimento econômico nos 20 anos subsequentes à queda do Muro. A França de François Hollande foi sucedida pelos guilets jaunes a contestar Emanuelle Macron. Rupturas da era Barack Obama foram inestimáveis para a vitória de Trump sobre Hillary Clinton. A “nova política” pós-crise trouxe o Movimento 5 Estrelas e a Lega Nord ao poder na Itália[vi]. O crescimento da extrema-direita nos parlamentos da Alemanha e da Áustria[vii] foi proporcional à estagnação econômica combinada com o aumento da intensidade da crise de refugiados sírios.

O fim da Guerra Fria trouxe uma combinação inquietante: euforia democrática mais expectativas de crescimento global calcadas na expansão dos valores liberais. Trinta anos após o Muro, os valores liberais parecem estar em retração. Distantes dos sonhos de Francis Fukuyama[viii], os primeiros anos do século 21 foram envoltos em terrorismo, disputas religiosas, crise econômica. O crescimento global aparece dissociado de dinâmicas democratizantes. A China de Xi Jinping é o exemplo vivo de uma trilha alternativa para a superação (ou mitigação) das contradições de uma economia no capitalismo tardio parcialmente globalizado[ix]. Por outro lado, a economia que mais rapidamente cresce no planeta – a Índia – é uma jovem democracia, assim como o Brasil.

Abordada num contexto global e em chave comparativa, a volta de velhos scripts no Brasil de Jair Bolsonaro é menos motivada pela recuperação do passado que por ansiedades presentes. Palavras proferidas nas cerimônias do novo governo trouxeram à tona diferentes ambivalências desse redivivo nacionalismo.

O discurso de posse de Ernesto Araújo no Ministério das Relações Exteriores[x] trouxe um arsenal de referências empregadas com fartura eclética. De Renato Russo e Raul Seixas a integralistas, José de Anchieta e Dom Sebastião, o palimpsesto ministerial ignorou eras e espaços diferentes em busca de um foco para sua gestão. A ideia do Brasil como integrante do Ocidente não é inédita[xi], mas sintomática. O outrora país do futuro se coloca em busca da pretensa Alma Mater.

Ao entregar ao presidente eleito o livro de posse, o senador Eunício Oliveira salientou que esse livro era o mesmo utilizado desde os tempos de Deodoro da Fonseca. A noção de recuperação das origens retorna via referência ao papel dos militares na proclamação da República no Brasil. Nesse momento, Bolsonaro – apenas o 4º militar presidente do Brasil – metaforicamente reforça a legitimidade de seu mandato, questionada após a fricção das urnas. Sua legitimidade se funda como continuidade de uma tradição reinventada: o capitão seria herdeiro espiritual do marechal. Em busca do mesmo efeito, o “retorno” do Brasil ao Ocidente traria um verniz de autoridade à controversa gestão de Araújo, questionado por seus pares antes mesmo de se tornar ministro.

Em lutar para tornar a América “grande novamente”, Trump mobilizou como poucos os recursos da sociedade da informação. Seu mix é inquietantemente novo e velho. Uma ressaca de 1989.

Em 2019 o Brasil se postou num diapasão trumpista. Trouxe uma coletânea de velhos ditos encapsulada na era digital. Num mundo de incerteza, a sombra do passado superou a do futuro.

colaborador

[i] Professor Visitante – Al Akhawayn University in Ifrane (Marrocos). Professor de Relações Internacionais – Universidade Federal do Tocantins (Brasil)

[ii] Carlos Frederico Pereira da Silva Gama (2018). Arrested Development: Brazil in a World in Crisis (2008-2018). E-IR. Disponível em: https://www.e-ir.info/2018/05/11/arrested-development-brazil-in-a-world-in-crisis-2008-2018/. Acesso em: 11 de Maio de 2018.

[iii] Michael Wolff (2017). Fire and Fury: Inside the Trump White House. Nova York: Henry Holt & Company.

[iv] Alexander Wendt (1994). Collective Identity Formation and the International State. The American Political Science Review Vol. 88, No. 2, pp. 384-396.

[v] Carlos Frederico Pereira da Silva Gama (2017). Turbulências na Integração Regional: MERCOSUL à Deriva. NEMRI. Disponível em: https://nemrisp.wordpress.com/2017/01/27/turbulencias-na-integracao-regional-mercosul-a-deriva/. Acesso em: 27 de Janeiro de 2017.

[vi] Carlos Frederico Pereira da Silva Gama (2018). As Contradições da Democracia Liberal nas eleições da Itália. CERES/NEMRI. Disponível em: https://nemrisp.wordpress.com/2018/03/16/as-contradicoes-da-democracia-liberal-nas-eleicoes-da-italia/. Acesso em: 16 de Março de 2018.

[vii] Carlos Frederico Pereira da Silva Gama (2017). Desintegração de esperanças: a União Europeia em meio à crise das democracias liberais. SRZD. Disponível em: http://www.srzd.com/geral/uniao-europeia-crise-democracias-liberais/. Acesso em: 26 de Dezembro de 2017.

[viii] Francis Fukuyama (1992). The End of History and the Last Man. Los Angeles: Avon Books.

[ix] Carlos Frederico Pereira da Silva Gama (2018). As Reeleições de Vladimir Putin e Xi Jinping numa ordem internacional em transformação. SRZD. Disponível em: http://www.srzd.com/geral/reeleicoes-vladimir-putin-xi-jinping-ordem-internacional-transformacao/. Acesso em: 22 de Março de 2018.

[x] Ministério das Relações Exteriores (2019). Discurso do ministro Ernesto Araújo durante cerimônia de Posse no Ministério das Relações Exteriores – Brasília, 2 de janeiro de 2019. Disponível em: http://www.itamaraty.gov.br/pt-BR/discursos-artigos-e-entrevistas-categoria/ministro-das-relacoes-exteriores-discursos/19907-discurso-do-ministro-ernesto-araujo-durante-cerimonia-de-posse-no-ministerio-das-relacoes-exteriores-brasilia-2-de-janeiro-de-2019. Acesso em: 03 de Janeiro de 2019.

[xi] Alain Rouquié & Mary Amazonas Leite de Barros (1990). O extremo-ocidente: introdução à América Latina. São Paulo: Edusp.

Prognóstico do Governo Bolsonaro

Faltando menos de um mês para a posse de um dos presidentes mais controversos da história do Brasil, ainda continua sendo uma tarefa árdua realizar um prognóstico do seu futuro governo, sem levantar as paixões partidárias e ideológicas que dividem o país ou sem ofender a seu séquito de seguidores.

Longe dessa questão banal que trata de simplificar o mundo em apenas dois lados, o intuito deste texto é analisar os acontecimentos recentes e seu possível impacto no sistema internacional, assim como a formação da equipe de governo do presidente eleito Jair Bolsonaro e suas repercussões na economia do Brasil.

 Muitas são as questões que geram as escolhas do futuro presidente, assim como o posicionamento de membros do seu governo perante temas considerados polémicos ou interesses divergentes aos seus integrantes. Sendo este o primeiro ponto a ser analisado.

O presidente eleito Jair Bolsonaro deve compreender que ao ser o chefe do executivo, deve governar para a totalidade da população e não somente a parcela que o apoia, da mesma forma deve conciliar os diferentes interesses do país, não sendo sua escala pessoal de valores o parâmetro que utilizado como linha de separação, mas sim aquilo que está estabelecido na constituição. Assim mesmo, seus eleitores devem compreender que ele é um funcionário do povo e não seu patrão, sendo eles mesmos os primeiros que devem questionar suas ações e não aceitar tudo de braços abertos somente pelo fato de que ele seja seu candidato. Essa é a principal diferença entre um presidente democrático e um messias religioso ou ditador.

Embora possa parecer um tema simples, a capacidade de diálogo de um governo é justamente uma das bases que legitima o pacto social e o diálogo político levando o país ao progresso. Saber quando termina o período eleitoral e quando começa de fato atuar como governo é fundamental, sendo necessário haver uma adaptação do discurso à realidade social e demográfica do país.

No caso de Bolsonaro, o que assusta tanto a comunidade internacional como aos opositores é que seu discurso mantem o mesmo tom agressivo usado durante as eleições, motivo que já gerou diversas contradições e mudanças de ultima hora. São justamente essas mudanças de opinião, geradas devido ao discurso passional e por contradições de membros de seu futuro governo, que por sua vez geram um entorno cheio de dúvidas e pouco previsível, o que mantém parceiros históricos do Brasil em alerta e setores da sociedade em grande desconforto.

O mercado interno também reflete essa cautela em relação ao governo de Bolsonaro, embora alguns setores sejam diretamente beneficiados pela formação de sua equipe de governo (tais como o agrobusiness) a indústria nacional por outro lado, teme uma repentina abertura de mercado sem o devido investimento em infraestrutura, o que levaria ao colapso de diversos setores que serão incapazes de competir com empresas estrangeiras que passem a atuar no país, sendo este ponto importante para o próprio bem-estar da população.

A venda indiscriminada de estatais é outro ponto que merece especial atenção, pois a privatização é sem dúvidas uma importante ferramenta de desenvolvimento, porém não todos os recursos e setores são passíveis de privatizar, ao menos não sem causar um forte impacto nos interesses nacionais e até mesmo na estratégia do país, colocando em risco a segurança energética, alimentícia e hídrica da nação. Se o objetivo é levar o país ao desenvolvimento, o controle de alguns setores é fundamental para promover um crescimento homogêneo e equânime e somente depois de alcançar um determinado patamar, avaliar sua privatização. Caso contrário o país e todos seus recursos estarão eternamente a mercê do mercado internacional e do interesse de grande multinacionais ou estatais estrangeiras, não havendo nenhum país na história do planeta que tenha conseguido dessa forma se desenvolver plenamente.

Outro ponto fundamental para analisar o futuro governo de Jair Bolsonaro é a política externa brasileira, já que a mesma é fundamental para manter as bases da economia (instauradas pelo plano Real) sendo a balança comercial uma das colunas do tripé econômico e o IED (investimento estrangeiro direto) uma das principais fontes de recursos financeiros do país.

Também é interessante analisar que o futuro presidente, critica as relações estabelecidas na gestão anterior que se caracterizaram pela diversificação de parceiros econômicos, alegando uma aproximação puramente ideológica, mas consequentemente ignorando as transformações geopolíticas dos últimos 20 anos.

As parcerias do Brasil com os países do Mercosul são essenciais para diversos setores (e começaram já no governo Collor) assim como com os países africanos (que permitiram a internacionalização de grande parte da indústria brasileiras que hoje atuam no exterior) sendo a África um dos continentes que mais cresce no planeta e a ultima região onde existe espaço para a própria expansão do capital, sendo sem duvidas a principal característica do sistema liberal.

Por outro lado a China e demais BRICS não somente refletem uma parceria ideológica, como também estratégia em termos geopolíticos, e por maior que seja a aversão do presidente eleito Jair Bolsonaro ao comunismo, cabe lembrar que a China se autoproclama em sua constituição como um pais comunista e que a mesma é o principal investidor no Brasil.

Um alinhamento com caráter exclusivo embora já tenha ocorrido em outros momentos históricos, poderia resultar em um suicídio econômico não devido ao fato de que seja os Estados Unidos, mas as politicas cada vez mais isolacionistas da gestão Trump.

Por ultimo a saída do Brasil de protocolos como o de Paris ou a não participação da nação em assuntos relevantes como o meio ambiente, reduz drasticamente a ação brasileira no cenário internacional e elimina anos de trabalho nesse sentido e que começaram muito antes nos anos 90.

Sendo assim, o governo do futuro presidente do Brasil possui três desafios fundamentais que nada tem a ver com um posicionamento ideológico, mas com a pura realidade social, econômica e politica do Brasil e do mundo.

Independente do posicionamento ideológico do presidente, o Brasil é um país multiétnico, multicultural e laico, com diversidade de religiões e opiniões, pelo qual é necessário gerar uma convergência entre os diferentes interesses e dialogar com os diferentes setores da sociedade, sem gerar uma polarização (como está acontecendo com os evangélicos) e promover uma conciliação nacional (sem dúvida necessária) o governo deve governar para a totalidade da nação respeitando sua diversidade assim como manda a constituição.

O segundo desafio está relacionado às transformações econômicas que devem ocorrer no país, pois sem dúvidas é necessário implementar mudanças, porém é importante não negligenciar a própria estrutura macroeconômica do Brasil assim como o estágio de evolução dos atores nacionais e sua capacidade competitiva e de transformação. Uma mudança drástica, a exemplo do que ocorreu na vizinha Argentina, pode gerar um colapso produtivo em lugar de uma transformação, sendo vital avaliar o quê precisa ser mudando e o tempo necessário para implementar essa mudança.

O terceiro desafio é um resumo dos pontos anteriores, a forma como o Brasil se apresentará perante a Comunidade Internacional e que sem dúvidas irá afetar não somente o fluxo de investimentos como também a própria atratividade dos recursos que serão apresentados e a entrada de novas empresas e novos atores.  Se dizer um país liberal mas atuar dentro de um espectro conservador pode gerar uma serie de ingerências e isolar o Brasil, levando a uma desvalorização generalizada tanto dos seus produtos como de dos seus recursos.

É impossível prever de momento os resultados da futura gestão de Bolsonaro. Atualmente existem grandes desafios e um determinado encanto (chamado na teoria politica de “efeito ganhador” por uma parte da população e do mercado que são típicos em um ciclo de mudanças no governo, mas que acostumam durar pouco, porém de momento e apesar das dúvidas o horizonte não parece muito promissor, ao menos não no que tange ao cenário internacional e a conciliação nacional.

16508475_1856260734643784_2512335075699457974_nWesley S.T Guerra, Atua como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comércio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latino-americano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura, MBA em Marketing pelo Massachussets Institute Of Business e mestrando em Políticas Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Membro do Smart City Council. Fundador do CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais.

Bibliografía:

O Brasil e o Mundo: a política externa e suas fases. Fagundes, Paulo G.

Como funciona o tripê econômico. Mello, Marcelo.

 

 

Brexit: Por que os britânicos saíram da União Europeia?

No dia 23 de junho de 2016, os britânicos optaram por deixar a União Europeia (UE) após o plebiscito. Em um discurso logo após uma semana do resultado do referendum, o governador do Banco da Inglaterra, Mark Carney, explanou sobre a “mudança de regime” do Reino Unido e a conflagração de uma “incerteza geopolítica” (CARNEY, 2016). Para Bachmann; Sidaway (2016), na onda de incertezas de como ou quando o Brexit vai acontecer, a emersão do despertar dos votos do Brexit remontam a cinco conceito-chaves: populismo, nacionalismo, imperialismo, fragmentação e desigualdades econômicas.

Há várias teorias sobre o porquê os britânicos resolveram sair da UE. De acordo com Clark, Goodwin e Whiteley (2017), essas incluem hostilidade contra imigrantes, desprezo pelos burocratas de Bruxelas, preocupações com a soberania, um sentimento anti-elite, insatisfação daqueles que foram deixados para atrás pela globalização, a longa história de euroceticismo, e a imprensa anti- europeia.

A campanha pela saída da UE, fundada por membros do UK Independence Party (UKIP), se destacou pelo bordão let`s take back control” (retomar o controle). No que se percebe uma sensação de perda de controle atingiu o país. Do ponto de vista de Tomlinson e Dorling (2016), Brexit está ligado ao saudosismo Império Britânico por dois motivos principais: as migrações de trabalhadores pós- Segunda Guerra Mundial de antigas colônias para o Reino Unido, o qual criou termos xenófobos subsequente de discursos sobre “imigração”, e declínio geopolítico da era uma vez um país hegemônico:

As classes mais baixas foram encorajadas a acreditar em sua superioridade econômica, política, social e racial do resto dos sujeitos do império. A subclasse doméstica poderia se tornar imperial sobre a classe e todas as classes britânicas poderiam se unir em uma superioridade patriótica nacional. A força desta solidária ainda está presente no século 21 e vai de algum modo para explicar a xenofobia, racismo e hostilidade que ainda é uma parte tão óbvia da herança britânica [ tradução feita pelo autor] (TOMLINSON & DORLING, 2016).

No que se refere à geografia eleitoral de 51,1% a 48,1%, a vitória do Brexit é pouco elástica, conforme Harry e Charlton (2016), mas os britânicos decidiram se afastar da UE se deve ao fato de que as pessoas simples não sentem as vantagens de estarem em um bloco econômico supranacional. A europeização e Bruxelas passaram  a ser  associadas com  a perda de autonomia-  incitação  de discursos de políticos e tabloides de direita (Mail, Express, e Sun). Essas versões se atribuem a perda de controle pelo poderio americano (as bases navais dos EUA nas ilhas britânicas e a membresia da OTAN- Organização do Tratado do Atlântico Norte, como uma limitação à soberania do país) e a americanização, o qual, supostamente, aumentou a quantidade de imigrantes (BACHMANN & SIDAWAY, 2016, p. 48).

Em contrapartida, segundo Littway (2016), o Brexit surgiu em razão de um apelo populista as mais baixas camadas que se sentem marginalizadas economicamente, socialmente e culturamente pela globalização, iludidos pela desinformação e um descarte aos efeitos potencialmente cataclísmicas dessa decisão.

Nesse sentido, refere-se que a fragmentação não representa algo exclusivo do Reino Unido. A Europa exibe vários exemplos disso, sobretudo os Programas Regionais e de travessias de fronteiras da UE em busca da integração. Como atesta Petrakos et al (2016, p. 699): “EU experience has shown that deeper integration may concise with increasing imbalances in competiveness, trade relations, and development level”. Além disso, a zona do euro não funcionou como esperado e resultou em discrepâncias nos caminhos de desenvolvimentos de vários países (POLLAND & SIDAWAYT, 2002).

Contudo, ainda há o medo existente que o Brexit possa levar a fragmentação do Reino Unido, dada a possibilidade de um novo referendo da Escócia para a independência e um potencial referendum da Irlanda do Norte para a unificação da Irlanda . Notadamente, a Inglaterra votou no Brexit, por 53,4% a 46,6%. País de Gales também votou no exit, com 52,5% a 47,5%. Por outro lado, tanto a Escócia quanto a Irlanda do Norte, juntamente com Londres, votaram para permanecer (BBC, 2017).

Ressalta-se ainda, as “fronteiras fantasmas”, ou seja a separação das fronteiras do Leste e Oeste europeu (Kraft, 2015) na fragmentação da sociedade contemporânea britânica não somente se assentam na divisão de territórios mas também na divisão de classes sociais e legados imperiais que por muito tempo existiu no Reino Unido (NAIRN, 1977).

Com efeito, a União falhou em não criar uma identidade europeia, fato é que o Brexit é um sintoma disso. A visão integracionista da UE não alcançou, ao total, os cidadãos europeus. Protestos depois do referendum mostraram que um número significante de pessoas entendem a Europa como igualmente importante quanto à identidade deles britânica.

41484448_235765263783488_6820077748703199232_nLucas Ribeiro, é Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UNB). Atua como coordenador do International Students for Liberty e como assistente de pesquisa para o Centro de Direito Internacional.

 

REFERÊNCIAS

Bachmann, Veit e Sidaway, James D. (2016). Brexit geopolitics. geoforum, 47-50.

BBC. (2017, April 25). Brexit: All you need to know about the UK leaving the EU. Retrieved from BBC News: http://www.bbc.com/news/uk-politics-32810887. Acesso dia 28/04/2017

Carney, Mark. (2016, June 30). Uncertainly, the economy and Policy. Retrieved from Bank of England: http://www.bankofengland.co.uk/publications/Documents/speeches/2016/speech915.pdf( Acesso dia 26/03/2017)

Clark, Harold; Goodwin, Matthew, e Whiteley, Paul. (2017). Brexit: Why Britain voted to leave the European Union. Cambridge: Cambridge University Press.

Harris, Richard, e CHARLTON, Martin. (2016). Voting out of the European Union: Exploring the geography of Leave. A environment and Planning, pp. 2116-2128.

 

Kraft, Claudia. (2015). Phantomgrenzen und Zeitschichten im Postsozialismus. Ist der Postsozialismus postkolonial. Gottingen: Wallstein.

LITTVAY, Levente. (2016). Compare populist movements. Comment, 487-89.

Nairn, Tom. (1977). The break-up of Britain: crisis and neo nationalism . Edinburgh: Common Ground. PETRAKOS, George ; TSIAPA, Maria e KALLIORAS, Dimitris. (2016). Regional inequalities in the

European Neighborhood Policy countries: The effects of growth and integratio. Environment and Planning C: Government and Policy, 698-716.

POLLAND, Jane. S e SIDAWAYT, James D. (2002). Nostalgia for the Future: The Geoeconomics and Geopolitics of the Euro. Royal Geographical Society (with the Institute of British Geographers, pp. 518–521.

TOMINSON, Sally e DORLING, Danny (2016, May 9). Brexit has its roots in the British Empire – so how do we explain it to the young? Retrieved from NewsStatesman: httpne://www.newstatesman.com/politics/staggers/2016/05/brexit-has-its-roots-british- empire-so-how-do-we-explain-it-young. Acesso em: 28/03/2017

De Império a Império, há tempos

Carlos Frederico Pereira da Silva Gama[i]

 

Há tempos tive um sonho

  Não me lembro, não me lembro

(Legião Urbana, “Há Tempos”)

Após a Grande Exibição de 1851, o Crystal Palace foi derrubado e reconstruído em outra parte de Londres. O prédio de ferro fundido e vidro projetado por Joseph Paxton e Owen Jones havia sido visitado por cerca de 1/5 da população do Reino Unido à época (que incluía a Irlanda) em menos de 1 ano, ajudado pela revolução dos transportes e da indústria que o palácio buscava corporificar[ii].

O surgimento e derrubada do Crystal Palace marcou o apogeu do longo reinado da Rainha Vitória.  Reconstruído de forma vazia, simbolizava o surgimento e o passamento de uma experiência. A maior parte dos objetos exibidos foram vendidos durante o período da exibição, ou foram devolvidos a seus donos. Sua efemeridade foi uma mais potentes metáforas da modernidade do nascente império britânico que se pretendia global, movido a ferro e vidro, onde o sol não se deitava jamais.

A inovadora obra (precursora das parcerias público-privadas) foi reapropriada por seus visitantes. O Crystal Palace se tornou uma atração em si mesma.

Algumas décadas antes, outro grande império, de extensão desconhecida, iniciava a construção do que hoje conhecemos como o Museu Nacional, na cidade do Rio de Janeiro, então uma capital imperial e sede de uma das mais antigas cortes da Europa. Rapidamente uma coleção única de artefatos passou a ter moradia permanente na atual Quinta da Boa Vista – pergaminhos da Torah, múmias egípcias, obras extraordinárias dos povos nativos do Brasil, o mobiliário imperial. Com acervo crescente, o museu sobreviveu ao fim da monarquia, a muitas ditaduras e crises econômicas. O Rio se tornou a capital federal e perdeu seu status, mas o Museu Nacional persistiu na sua singularidade.

Em 1936 – ano de uma crise econômica global – o Crystal Palace pegou fogo. Restaram maquetes, imagens, relatos, fotos, pinturas, reminiscências, referências arquitetônicas, literárias, musicais.

O passado não é um lugar inerte, sem vitalidade. Permanece vital, reapropriado pelos pósteros. Não se resume a uma nostalgia gloriosa.

Nas palavras de Barbara Misztal[iii], quem está invocando qual versão do passado – e para que?

O que há de ser preservado – por que, para que, por quem, para quem?

O que merece fazer parte do futuro de muitos, senão de todos?

Tais questões não findaram nas chamas: permanecem em aberto. Delas a democracia não se separa.

Diante da visão das ruínas do Museu Nacional, o Brasil contempla esses dilemas em 2018.

Em meio a acusações privadas e públicas, no fogo das eleições, o país do futuro se remove em cinzas.

Todas os tons do espectro político apontam a responsabilidade e o dedo para o outro lado, e temos a sensação palpável de que um bem coletivo[iv] foi arrebatado do seio da nação. As feridas são sentidas em escala municipal, estadual, federal – até mesmo mundial[v].

Será que a sociedade civil brasileira conseguiu se reapropriar de tudo aquilo que a Família Real e seus sucessores depositaram na Quinta da Boa Vista?

Em meio à vertigem das perdas, 200 anos parecem ter sido insuficientes.

Qual o Angelus Novus de Paul Klee[vi], não podemos fazer retroceder o relógio, reunir escombros, reerguer o que deixamos perecer. Reconstruções são parciais. São atos políticos: mudam os rumos.

Ao manter uma distância respeitosa da própria história, não sabemos o que dizer a respeito.

Subitamente, o Crystal Palace parece estar bem mais em pé do que nosso quase bicentenário palácio recém-acalentado pelas chamas em outro período de crise econômica num mundo globalizado.

Enquanto a comoção pública se resumir às dependências do museu, perdemos a chance de repensar a nação. Nossas escolhas se atrofiam, o futuro se embaça numa cortina de fumaça.

Lidar com a finitude, as contingências, fracassos e frustrações é uma tarefa inescapável da liberdade. A criatividade humana encontra sua luz nos desafios que pavimentam o nosso caminhar.

Agora, como sempre, recomeça a luta pelo futuro, para definir quem e porque terá dignidade para fazer parte do que restará desse museu. Quem vai ter o que dizer dependerá de nossas escolhas.

Nosso tempo precisa de um update.

Referências

Barbara Misztal (2003). Theories of Social Remembering. Berkshire, Open University Press.

David Carradine (2017). Victorious Century. New York, Viking.

Mancur Olson (1965). The Logic of Collective Action. Harvard, Harvard University Press.

Walter Benjamin (1940). “Theses on the Philosophy of History”. Disponível em: https://www.sfu.ca/~andrewf/CONCEPT2.html. Acesso em: 03 de Setembro de 2018.

 

colaborador

[i] Professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Tocantins (UFT)

[ii] David Carradine (2017). Victorious Century. New York, Viking: p. 282

[iii] Barbara Misztal (2003). Theories of Social Remembering. Berkshire, Open University Press.

[iv] Mancur Olson (1965). The Logic of Collective Action. Harvard, Harvard University Press.

[v] http://www.lefigaro.fr/culture/2018/09/04/03004-20180904ARTFIG00096-solidarite-de-la-france-apres-l-incendie-du-musee-national-de-rio-de-janeiro.php

[vi] Walter Benjamin (1940). “Theses on the Philosophy of History”. Disponível em: https://www.sfu.ca/~andrewf/CONCEPT2.html. Acesso em: 03 de Setembro de 2018.